O Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, celebrado neste domingo (28), vai além de uma data no calendário ou do uso das cores do arco-íris para fins publicitários. Para marcar a ocasião, o g1 conversou com oito representantes da comunidade das regiões de Sorocaba e Jundiaí (SP), que compartilharam suas histórias de autoentendimento, amor e coragem. Cada pessoa respondeu à pergunta: "Por que se orgulhar?"
Lésbica: Aline Marchetti, 35 anos, Sorocaba
Aline, professora e intérprete de Libras, diz que o processo de entender-se lésbica foi doloroso. Por muito tempo, ela não quis aceitar quem era. "Eu sempre gostei de usar roupas mais largas, roupas masculinas, e eu me via em um cenário no qual usar esse tipo de roupa era uma 'Maria João', como me chamavam na escola. Eu me sentia mal, porque eu gostava de usar aquelas roupas, me sentia confortável, mas incomodava a sociedade. Para não incomodar, eu precisava não ser quem eu era", conta. Casada há cinco meses, Aline afirma que se tornou mais livre e feliz após assumir sua sexualidade. Ela destaca o papel da mídia na aceitação da família: "Entro de mãos dadas com minha esposa em restaurantes, shoppings e parques, e as pessoas naturalizaram isso, mas a gente também não pode generalizar. (...) Depois que assumi minha sexualidade, houve muito mais lutas e batalhas, principalmente por parte de minha mãe. Mas hoje a gente já superou isso, minha mãe ama minha esposa, e as duas batem altos papos."
Gay: Carlos Eduardo Cardoso dos Santos, 24 anos, Sorocaba
Analista de relações públicas, Carlos se entendeu como gay desde criança, mas o processo veio mais dos outros do que dele mesmo. "As pessoas me apontavam como uma criança mais sensível, mais afeminada. Eu não me via assim. (...) Enquanto meus colegas estavam paquerando minhas amigas, eu não sentia atração por elas e foi aí que entendi que era diferente mesmo. Mas me permitir ser gay veio bem depois, depois do meu primeiro namorado, inclusive", relata. Ele não precisou de uma reunião familiar para se assumir; tudo aconteceu naturalmente. "Minha relação com meu pai, inclusive, melhorou muito mais depois disso. Mas a confiança que se ganha ao não precisar esconder ou ao menos 'pisar em ovos' sobre o assunto traz uma paz interior muito gratificante", diz. Carlos destaca o apoio da mãe, Aliete Cardoso, que mesmo de uma geração diferente, entendeu o filho desde o primeiro segundo.
Bissexual: Felipe da Silva Oliveira, 30 anos, Sorocaba
Psicólogo, Felipe diz que compreender sua bissexualidade foi complexo. "Na minha cabeça, até me descobrir, só fazia sentido a partir de um caminho só. A partir da vida adulta, o curso de psicologia foi me fazendo compreender, de forma mais clara, que a construção de sexualidade não é uma escolha ou definição preto no branco, mas sim um processo de descoberta. Isso tirou um peso gigantesco das minhas costas", afirma. A principal mudança após se assumir foi sentir aceitação e pertencimento. "Sem dúvida nenhuma, minha mãe é minha maior influência. Desde pequeno, sempre tive espaço para conversar sobre tudo. E no início da vida adulta, quando conversei com ela (sobre ser bi), me apoiou e criou um espaço tão seguro que nunca pensei que poderia sofrer por isso", destaca.
Transexual: Mar Carrasco, 20 anos, Sorocaba
Homem trans e bissexual, Mar começou a se entender durante a pandemia, em 2021. "Com 14 ou 15 anos, é muito para um adolescente assimilar, principalmente sem um apoio presente, apenas uma comunidade que você vê na internet. É um processo até hoje (aceitação). Quando você transiciona, o ambiente em que você vive transiciona junto. Então, amigos, meus pais, pessoas que faziam parte do meu dia a dia também tiveram de se adaptar", conta. Depois da transição, sente-se mais confortável e feliz. "Além de amigos próximos, meus pais (foram rede de apoio). Apesar de ser meu maior receio a recepção da minha família, eles são compreensivos e me dão algum suporte nas minhas decisões", afirma.
Queer: Bruno Camargo de Abreu, 29 anos, Sorocaba
Bruno é uma pessoa queer não-binária, maquiador e drag queen. "Desde pequeno, sempre fui muito expressivo, e minha família sempre estimulou muito a minha criatividade. Quando me entendi como uma pessoa LGBTQIA durante a adolescência, foi algo natural para mim. Me senti à vontade para me expressar e reivindicar a minha individualidade de ser quem eu sou", diz. Ele usou a drag como escudo contra o preconceito: "Principalmente por vir do interior de São Paulo, acho que nunca é fácil ser a pessoa diferente, mas quando eu comecei a me maquiar e criei a minha drag, usei isso como um escudo contra o preconceito de uma cidade conservadora, e senti que minha confiança em ser quem eu sou tinha se firmado." Sua mãe foi sua maior defensora.
Pansexual: Matheus Henrique Pinheiro Massari, 20 anos, Sorocaba
Fotógrafo e pessoa não-binária pansexual, Massari enfrentou negação antes de se aceitar. "Antes de me permitir entender a atração, houve muita negação. Eu me sentia confuso e até tinha um certo preconceito induzido pela família", inicia. "Depois de alguns fatos, como conhecer um primo que é assumidamente gay, meu melhor amigo se assumir gay e eu passar a entender um pouco mais sobre política e cidadania, passei a me permitir processar e entender a atração que eu sentia, que era independente de gênero." Ele demorou para se assumir para a família e ainda tem receio de preconceito, mas seu melhor amigo e sua psicóloga foram apoios essenciais.
Não-binário: Fetú Nicioli Cerioni, 25 anos, Jundiaí
Artista de dança e pesquisadora, Fetú (pronomes elu/delu) começou a questionar o gênero na adolescência. "Meu pai é jornalista e escritor, minha mãe, psicanalista e professora, então nossa casa sempre foi um espaço de muito debate e reflexão, principalmente sobre gênero. Foi durante a pandemia, em meio à minha graduação em Dança na Unicamp, que me aproximei dos debates sobre não-binariedade, por meio da Teoria Queer, e passei a compreender o gênero em sua dimensão fundamentalmente social — e aí não tinha mais volta", conta. Fetú destaca a parceria da mãe, que hoje coordena uma clínica social de psicanálise para pessoas LGBTQIAPN+, e das amizades queer. Para elu, o Dia do Orgulho é uma oportunidade de lembrar figuras como Marsha P. Johnson e o papel fundamental das pessoas trans na luta por direitos.



