Brasileira denuncia agressão e furto ao trabalhar como au pair em Martinica
Brasileira denuncia agressão e furto como au pair em Martinica

Giselle Matias, empresária cearense de 25 anos, denunciou ter sofrido violência física e psicológica após viajar para a ilha de Martinica, território francês no Caribe, para trabalhar como au pair para uma família. Após desentendimentos, o pai da família teria furtado seu passaporte e celular, além de agredi-la fisicamente. Hospitalizada, ela conseguiu retornar a Itapipoca, no interior do Ceará, nesta segunda-feira (20). Giselle divulgou vídeos sobre o caso nas redes sociais no dia 16 de julho.

Como funciona o programa au pair

Os programas de au pair são voltados para pessoas que viajam a um país diferente para ajudar uma família a cuidar dos filhos. Em troca, essas pessoas — geralmente mulheres jovens — recebem moradia, comida e um pagamento, como uma mesada. O objetivo é permitir o aprendizado de outra língua e imersão cultural.

Ao g1, Giselle explicou que conheceu o perfil do homem, que se dizia canadense, por meio de uma plataforma online que conecta famílias a pessoas interessadas em serviço de au pair. O site escolhido faz o contato sem intermédio de agências ou empresas que orientem sobre documentação exigida para entrar em países estrangeiros. Os empregadores e interessados negociam diretamente os termos do serviço e o deslocamento.

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Motivação e desentendimentos

A empresária, proprietária de uma confeitaria em Itapipoca, buscava uma mudança de vida para a família e planejava morar fora do Brasil com o marido e as filhas. A comunicação com a família era em inglês, idioma que ela estuda, mas admite ter conhecimentos básicos e dependia de ferramentas de tradução online. Segundo Giselle, o anfitrião prometeu que ela acompanharia a família durante as férias em Martinica, cuidando dos dois filhos: um menino de 7 anos e uma menina de 11 anos. A promessa final era que, ao fim das férias, ela seguiria com a família de volta ao Canadá, onde o empregador regularizaria o visto de au pair.

No Canadá, brasileiros devem apresentar passaporte válido e autorização prévia do governo. Os custos de Fortaleza até Martinica foram pagos pelo anfitrião. Ao chegar em Le Marin, no início de julho, Giselle ficou em uma casa alugada por ele. Ela afirma que, em mensagens antes de sair do Brasil, ele prometeu que ela ficaria sozinha na casa, enquanto ele e os filhos estariam em um iate. Quando chegou, todos estavam na mesma casa, o que a incomodou pela falta de privacidade, mas não questionou.

No segundo dia, o homem não gostou de saber que ela tem duas filhas — informação que ela não havia dado no cadastro do site. “Na plataforma, se você tiver filhos, você nem consegue se inscrever. E eu estava disposta a deixar aqui [no Brasil] as minhas filhas com o pai e ir trabalhar fora. E eu falei para ele naquele momento. Eu pensei que não fosse influenciar em nada porque eu já estava lá, e as minhas filhas não tinham ido comigo”, explicou ao g1. Giselle se sentiu excluída das atividades da família. O homem disse que, se soubesse, não a teria contratado. Ela então comunicou que, se ele não estivesse feliz, poderia enviá-la de volta. O anfitrião havia prometido pagar a passagem de volta caso ela não se adaptasse, mas, após os desentendimentos, recusou-se a custear o retorno.

Agressões e hospitalização

Após enviar mensagens explicando a situação ao marido e à mãe, Giselle ingeriu grande quantidade de comprimidos no quarto, menos de uma semana após chegar. No dia seguinte, ainda mal, o anfitrião exigiu que ela fizesse as malas e saísse imediatamente. Ela não encontrou o celular e o passaporte; o homem teria afirmado que estava com os itens e não os devolveria. Sob efeito dos remédios, ela foi conduzida para fora da casa e caiu ao descer as escadas com as malas. Em depoimento à polícia local, disse que foi arrastada com puxões nos cabelos do primeiro andar ao térreo. Ao g1, detalhou que não conseguiu identificar se houve outras agressões ou se os hematomas foram causados pela queda.

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O anfitrião e as crianças deixaram a casa e não retornaram. Giselle foi socorrida por duas mulheres da região, que chamaram uma ambulância. As vizinhas falavam francês, mas conseguiram se comunicar para oferecer apoio. À polícia, Giselle afirmou que conseguiu um telefone emprestado com um enfermeiro para contatar o marido. Hospitalizada, exames constataram uma fratura no pé; ela segue usando bota imobilizadora.

Assistência consular e retorno

Familiares de Giselle contataram autoridades brasileiras. Ela recebeu ajuda de uma voluntária brasileira do consulado, que a acolheu em casa após a alta hospitalar. A voluntária auxiliou com trâmites e documentações junto ao consulado e a acompanhou à delegacia da Polícia de Martinica, onde denunciou o furto do passaporte e do celular, além das violências sofridas. O passaporte e o celular foram devolvidos posteriormente pelo anfitrião. Giselle relata que várias mensagens foram apagadas do celular, provavelmente para evitar provas contra ele.

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que acompanha o caso e presta assistência consular por meio do Consulado-Geral do Brasil em Caiena, capital da Guiana Francesa. A pasta não confirmou a forma de assistência prestada. “O atendimento consular prestado pelo estado brasileiro é feito a partir de contato do cidadão interessado ou, a depender do caso, de sua família”, diz a nota, complementando que não divulga informações pessoais por direito à privacidade.

Enquanto ainda em Martinica, Giselle arrecadou quase R$ 5 mil vendendo pontos de rifas no perfil da confeitaria para custear parte do retorno. Cerca de uma semana antes do retorno, recebeu do consulado a passagem de volta para Fortaleza. Chegou em Itapipoca na noite de segunda-feira (20) e retornou ao convívio com os familiares.

Alerta e próximos passos

Em vídeos nas redes sociais, Giselle alertou para que outras pessoas não saiam do país ao receber ofertas que “parecem boas demais para ser verdade”. Ela admite que ficou deslumbrada com a possibilidade de mudar de vida e se precipitou ao se mudar sem falar o idioma local. “Eu aconselho vocês a não fazerem o mesmo. Procure, sim, mudar de vida, mas procure mudar de vida de uma forma segura. Procure ajuda, pergunte a pessoas que têm informação”, declarou. À reportagem, detalhou que pretende entrar com um processo judicial contra o pai da família que a contratou.