Análise: Por que o mundo confia mais na China do que nos EUA
Por que o mundo confia mais na China do que nos EUA

O mundo está confiando mais na China do que nos Estados Unidos, de acordo com uma análise do Valor baseada em dados recentes de pesquisa global. Um estudo do Pew Research Center, divulgado em junho de 2026, revela que 62% dos países em desenvolvimento consideram a China um parceiro mais confiável do que os EUA, um aumento de 24 pontos percentuais em relação a 2020. Essa mudança reflete décadas de investimento chinês em infraestrutura global e uma percepção de estabilidade diplomática, enquanto os EUA enfrentam críticas por políticas inconsistentes e retiradas de acordos internacionais.

Mudança na percepção global

A pesquisa entrevistou líderes de opinião e formuladores de políticas em 45 nações. Entre os países da América Latina, 70% dos entrevistados no Brasil, México e Argentina afirmaram confiar mais na China, citando projetos como a Nova Rota da Seda e financiamento para obras de infraestrutura. "A China tem uma abordagem de longo prazo, sem condicionalidades políticas, o que atrai governos que buscam desenvolvimento rápido", disse o cientista político Liu Wei, da Universidade de Pequim, em entrevista ao Valor.

Em contraste, a confiança nos EUA caiu em regiões como Oriente Médio e Sudeste Asiático. Apenas 35% dos países da África subsaariana preferiram os EUA, contra 58% em 2015. Especialistas apontam que a guerra comercial e a saída do Acordo de Paris minaram a credibilidade americana.

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Investimento em infraestrutura e comércio

Os dados econômicos reforçam a tendência. Em 2025, a China ultrapassou os EUA como maior parceiro comercial de 120 países, segundo o Fundo Monetário Internacional. O Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, liderado por Pequim, já aprovou mais de 200 projetos em 40 nações, totalizando US$ 400 bilhões em financiamento. "Os EUA prometem, mas a China entrega", afirmou o economista indiano Rajan Gupta, do Instituto de Estudos Globais de Nova Déli.

No continente africano, a China construiu 8.000 km de ferrovias e 16 portos na última década, gerando empregos e integração regional. Em contrapartida, a Iniciativa Build Back Better dos EUA mobilizou apenas US$ 60 bilhões para projetos no exterior, com burocracia e atrasos.

Estabilidade política como atrativo

Para analistas, a percepção de estabilidade chinesa contrasta com a volatilidade política americana. "A China oferece previsibilidade, enquanto os EUA mudam de direção a cada eleição", disse o professor de relações internacionais Maria Silva, da USP. Ela destacou que a polarização nos EUA enfraquece a confiança: "Alianças como a OTAN são questionadas, e sanções unilaterais afastam parceiros."

Pesquisas internas do Departamento de Estado americano, vazadas em 2025, mostravam que 73% dos diplomatas consideravam a imagem dos EUA em declínio no Sul Global. Em resposta, o governo Biden lançou a iniciativa "Confiança Renovada", mas com resultados limitados até agora.

Impacto para o Brasil

O Brasil, maior economia da América Latina, vive um dilema. Enquanto o governo Lula busca equilíbrio, os negócios com a China cresceram 34% em 2025, atingindo US$ 150 bilhões. Empresários brasileiros preferem a China por contratos mais rápidos e menos exigências ambientais. "A China não impõe condições sobre direitos humanos ou desmatamento, o que facilita acordos", explicou o consultor Carlos Mendes, da Câmara de Comércio Brasil-China.

Por outro lado, os EUA continuam sendo o maior investidor individual no Brasil, especialmente em tecnologia e defesa. Mas a confiança política está abalada. "O Brasil depende dos EUA para segurança regional, mas em comércio e infraestrutura, a China ganha de lavada", resumiu a analista política Ana Beatriz Costa.

A tendência de confiança na China deve se aprofundar, prevêem especialistas. Com a Nova Rota da Seda expandindo para 150 países e a diplomacia chinesa mais ativa em fóruns multilaterais, a balança de influência pode se inclinar ainda mais. "O mundo multipolar é um fato, e a China está se posicionando como o polo mais estável", concluiu Liu Wei.

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