O Itamaraty negou nesta sexta-feira (24) vistos de entrada a dois altos funcionários do Departamento de Estado americano, chefiado pelo republicano Marco Rubio. Identificados pelo jornal Washington Post como Riley M. Barnes e Samuel D. Samson, os diplomatas viriam com a justificativa oficial de discutir liberdade de expressão no contexto das eleições brasileiras. No entanto, segundo o veículo americano, o objetivo real da viagem era questionar a integridade do processo eleitoral.
Risco de instrumentalização pré-eleitoral
A negativa ocorreu antes da publicação da reportagem do Washington Post. A avaliação interna do Itamaraty levou em consideração que o pedido de visto com essa finalidade ocorreu em um momento em que o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) questionou as urnas eletrônicas, inclusive em um evento com diplomatas. Observou-se haver, então, um risco de instrumentalização da visita em um contexto pré-eleitoral.
O Itamaraty confirmou que a entrada foi negada para Riley Barnes, secretário-assistente, e Samuel Samson, secretário-assistente adjunto do Departamento de Estado americano. Em nota, o órgão disse que sua área internacional foi procurada pela Embaixada dos Estados Unidos para tratar sobre a visita de integrantes do governo americano, mas sem informação sobre qual seria a pauta.
Samuel Samson: o jovem diplomata da guerra cultural
Samuel Samson, de 27 anos, ocupa atualmente a função de Subsecretário Adjunto de Estado no Gabinete de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho (DRL). Segundo sua biografia oficial, ele defende o “desenvolvimento de políticas para preservar a herança civilizacional ocidental da América, bem como outros projetos regionais e estruturais para promover a agenda ‘América em Primeiro Lugar’”. Filho de mãe filipina e pai americano, Samson é descrito como católico desde a infância.
Por três anos, Samson trabalhou como diretor de parcerias estratégicas da organização sem fins lucrativos American Moment, apoiada pelo então senador J.D. Vance, atualmente vice-presidente dos EUA. O grupo tem como objetivo ajudar jovens líderes conservadores a conseguirem carreiras no governo.
Em abril, Samson foi personagem de uma reportagem do jornal The New York Times intitulada “O diplomata de 27 anos que trava a guerra cultural de Trump contra a Europa”. Segundo a matéria, Samson viajou ao continente para cultivar laços entre Washington e grupos de extrema-direita europeus, como o partido alemão Alternativa para a Alemanha (AfD). Em março, ele esteve em um encontro secreto em Londres com Nigel Farage, um dos principais defensores do Brexit e atualmente líder do partido Reform UK, com quem discutiu aborto e censura. Meses depois, em maio, viajou a Paris, onde tentou convencer uma comissão de Direitos Humanos de que Marine Le Pen, líder do partido Reagrupamento Nacional (RN), havia sido injustamente condenada por desvio de recursos do Parlamento Europeu.
Confrontos com autoridades europeias
Ao jornal americano, Magali Lafourcade, diretora da comissão independente que aconselha o governo francês no tema, disse que Samson a questionou se eles pretendiam intervir a favor de Le Pen. Ela descreveu a conversa com o americano como “circular” e afirmou ter se negado a posar para uma foto com Samson. “Para mim, pareceu mais uma busca por desinformação”, disse ela, acrescentando que relatou o encontro ao governo francês sob a alegação de possível interferência estrangeira.
Na França, Samson e colegas visitaram também o escritório da ONG Repórteres Sem Fronteira, onde criticaram a legislação europeia que regula big techs e redes sociais. Na conversa, Samson argumentou que a lei impedia nomes da direita de se expressarem online e afirmou que a França “gradualmente se tornava a Coreia do Norte”.
Atuação na Europa Central
Em outra viagem à Europa em dezembro, Samson passou pela Áustria, Eslováquia e Hungria, na época ainda governada pelo conservador Viktor Orbán. Em um discurso no Instituto Húngaro de Assuntos Internacionais, entidade vinculada ao governo conservador do país, ele afirmou: “Claramente, essa não é uma Europa de liberdade de expressão e autogoverno”. Samson, que na época desejava rebatizar seu gabinete para “Gabinete de Direitos Naturais”, acrescentou que pretendia empreender “ações direcionadas para resistir tanto aos autoritários tradicionais quanto aos ideólogos modernos que buscam minar esses bens sociais fundamentais”.
Em setembro de 2025, Samson participou de uma reunião com representantes da AfD em Washington. Os políticos do partido afirmaram temer que a sigla possa ser banida na Alemanha, enquanto os americanos criticaram a legislação europeia que regula redes sociais. Também foi tema da conversa a teoria da conspiração de que líderes europeus buscam substituir a população branca por imigrantes.
Riley Barnes: subsecretário e coordenador para o Tibete
O outro funcionário americano barrado pela diplomacia brasileira é Riley M. Barnes, subsecretário para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho. Desde fevereiro, ele também é Coordenador Especial de Assuntos Tibetanos. No mês seguinte, assumiu a função de Embaixador para a Liberdade Religiosa Internacional. Antes, Barnes ocupou outros cargos no Departamento de Estado e foi redator sênior de discursos do senador republicano do Texas John Cornyn.
A negativa de vistos ocorre em meio a tensões diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos, com o governo brasileiro buscando proteger a integridade do processo eleitoral contra possíveis interferências estrangeiras. O Itamaraty não forneceu detalhes adicionais sobre os motivos da recusa, mas a avaliação interna citou o risco de a visita ser usada para desacreditar o sistema eleitoral brasileiro.



