O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia o momento mais adequado para determinar o retorno do embaixador brasileiro na Argentina, Júlio Bitelli, a Buenos Aires. O diplomata foi chamado de volta a Brasília em dezembro do ano passado, após uma série de declarações consideradas hostis do presidente argentino, Javier Milei, contra o Brasil e Lula. Desde então, as relações bilaterais permanecem em um nível reduzido, com encarregados de negócios mantendo o funcionamento das embaixadas.
Contexto das tensões diplomáticas
O estremecimento começou ainda durante a campanha eleitoral argentina, quando Milei classificou Lula como "comunista" e disse que não negociaria com países que não respeitassem a liberdade. Após a vitória de Milei, em novembro de 2023, Lula não compareceu à posse, enviando o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. A situação se agravou em dezembro, quando Milei afirmou que o Brasil estava "isolado" e que Lula era "um presidente sem ideias". Em resposta, o Itamaraty chamou Bitelli para consultas, medida usual em casos de desentendimentos graves.
Sinais de distensão
Nos últimos meses, no entanto, houve movimentos de aproximação. Em julho, durante a cúpula do Mercosul em Assunção, Lula e Milei tiveram um encontro breve, mas cordial. Segundo fontes do Itamaraty, a conversa foi "respeitosa" e abriu caminho para a normalização das relações. "O presidente Lula deixou claro que o Brasil valoriza a parceria estratégica com a Argentina e que está disposto a superar as diferenças ideológicas", afirmou um assessor diplomático que acompanhou a reunião. Além disso, o ministro da Economia argentino, Luis Caputo, visitou Brasília na semana passada para tratar de acordos comerciais.
Critérios para o retorno
O governo brasileiro estabeleceu algumas condições para o retorno do embaixador. Primeiro, espera-se que Milei faça uma declaração pública reconhecendo a importância da relação bilateral e evitando novos ataques. Segundo, a agenda bilateral deve avançar em temas como comércio, energia e infraestrutura. "Não se trata de exigir um pedido de desculpas, mas de garantir um ambiente de respeito mútuo", explicou a mesma fonte. O Itamaraty também avalia o calendário político: uma volta muito próxima às eleições legislativas argentinas de outubro poderia ser interpretada como interferência.
Impactos econômicos e políticos
A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil na América Latina, com um fluxo bilateral de cerca de US$ 28 bilhões em 2025. A indefinição sobre o retorno do embaixador gera incertezas em setores como o automotivo e o de alimentos. Empresários brasileiros com investimentos na Argentina, como a JBS e a Gerdau, manifestaram preocupação. "Precisamos de uma relação estável para planejar investimentos de longo prazo", disse o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, em entrevista recente.
Próximos passos
Segundo o Itamaraty, a decisão deve ser tomada nas próximas semanas. Uma viagem do chanceler Mauro Vieira a Buenos Aires está sendo planejada para setembro, e o retorno de Bitelli pode coincidir com essa visita. "Estamos trabalhando para que o embaixador volte o mais rápido possível, mas no momento certo", afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores. Enquanto isso, a embaixada em Buenos Aires segue chefiada pelo encarregado de negócios, Paulo Cordeiro, que mantém contato com o governo argentino para assuntos correntes.



