A atividade industrial da China entrou em contração em julho, com o índice oficial de gerentes de compras (PMI) caindo para 49,8 ante 50,2 em junho, segundo dados do Escritório Nacional de Estatísticas (NBS). Com a leitura abaixo da marca de 50 pontos, o setor manufatureiro chinês interrompeu uma sequência de cinco meses de expansão, acendendo alerta sobre a perda de fôlego da segunda maior economia do mundo.
O NBS informou que a queda do indicador refletiu a diminuição das novas encomendas, tanto domésticas quanto externas, além do enfraquecimento da confiança empresarial. O subíndice de novos pedidos recuou para 49,0, enquanto o de produção permaneceu em território positivo, mas com ritmo menor, ao passar para 52,1. A pesquisa foi realizada entre 1º e 20 de julho, com 3.200 empresas de grande e médio porte.
Razões por trás da desaceleração
Economistas apontam que a combinação de fatores sazonais e estruturais pesou sobre o resultado. As enchentes em regiões produtoras do sul do país atrapalharam a logística e a operação de fábricas, enquanto a fraca demanda global por produtos industrializados reduziu o fluxo de exportações. Além disso, o setor imobiliário segue em crise prolongada, com impacto direto sobre cadeias de suprimento de materiais de construção e eletrodomésticos.
A leitura do PMI oficial, administrado pela Federação Chinesa de Logística e Compras (CFLP), é um dos principais indicadores antecedentes da atividade econômica do país. Números abaixo de 50 indicam retração da manufatura na comparação mensal. Analistas já esperavam certo arrefecimento após o forte impulso do segundo trimestre, mas a magnitude da queda surpreendeu parte do mercado.
Impactos e expectativas
Para o banco de investimentos Goldman Sachs, o dado reforça a necessidade de novos estímulos por parte do governo chinês. Em relatório enviado a clientes, a instituição afirma que a trajetória descendente do PMI indica que o crescimento industrial perdeu tração mais cedo do que o previsto e que medidas de apoio fiscal e monetário devem ser intensificadas no segundo semestre.
No cenário global, a contração da indústria chinesa tende a pressionar preços de commodities e afetar exportadores de países em desenvolvimento que dependem da demanda chinesa. O minério de ferro, por exemplo, já opera em queda nos mercados futuros de Dalian, refletindo a expectativa de menor consumo de aço.
Reação dos mercados
Os mercados asiáticos reagiram com cautela à divulgação do indicador. O índice Xangai Composto recuou 0,4% na manhã desta quinta-feira, enquanto o dólar australiano, considerado uma proxy para o apetite por risco ligado à China, perdeu força. Já os papéis de empresas ligadas à indústria pesada tiveram queda superior a 1%.
A expectativa agora é o mercado acompanhar de perto a próxima decisão de política monetária do Banco do Povo da China (PBoC). Parte dos investidores aposta em um corte na taxa de juros ainda em agosto, o que ajudaria a baratear o crédito para empresas e famílias. O governo, por sua vez, já sinalizou a antecipação de emissões de títulos especiais para acelerar investimentos em infraestrutura.
O resultado de julho contrasta com o tom otimista do fim do primeiro semestre, quando a economia chinesa cresceu 4,9% no segundo trimestre ante um ano antes, impulsionada pelas exportações e pela produção industrial. A meta oficial de crescimento para 2026 é de 5%, e a persistência da fraqueza industrial pode tornar o cumprimento dessa meta mais desafiador.
Para os próximos meses, especialistas avaliam que a indústria pode flertar ainda com a zona de contração, caso as encomendas externas não se recuperem. A pesquisa PMI abrange também o setor de serviços, que segue em expansão, mas com velocidade menor. A leitura final do indicador, que pondera a saúde do setor industrial, é vista como um termômetro preciso da saúde econômica do gigante asiático.



