Duas semanas após o duplo terremoto que devastou a Venezuela em 24 de junho de 2026, familiares dos desaparecidos continuam cavando os escombros com as próprias mãos, em meio à falta de apoio governamental. Em Playa Grande, estado de La Guaira, a área mais atingida, Ciro Ocando escava sem descanso para encontrar seus dois filhos adolescentes, de 13 e 18 anos, e a tia deles, soterrados sob um prédio desabado. "A vida parou aqui faz duas semanas", disse à AFP.
Famílias montam acampamento e cavam túneis por conta própria
Ocando e seus irmãos chegaram logo após os terremotos e nunca mais foram embora. Inicialmente, esperavam resgatar os jovens com vida, mas agora buscam apenas os corpos. A família montou um acampamento provisório em frente às ruínas, ao lado de um contêiner de lixo transbordando que atrai moscas. "Esse aparelho de iluminação, o gerador, as ferramentas, tudo é por minha conta, fui eu que comprei tudo", ressaltou Ocando, enquanto outros homens retiravam escombros de um pequeno túnel aberto por eles.
Após mais de uma semana de esforços, na quarta-feira conseguiram chegar ao apartamento onde os adolescentes viviam. Um álbum de fotos encontrado é a prova de que estão no local certo. Lá dentro, nove pessoas tentam encontrá-los; em cima, outras perfuram a partir de diferentes ângulos, em busca de seus entes queridos.
Desabamento atribuído a negligência na construção
Damián Molero, irmão de Ocando, reconhece que arriscam a vida ao desafiar a massa de concreto em ruínas. "Mas, para nós, os familiares, vale a pena se arriscar, eles (o governo) só querem demolir", afirmou, expressando impotência e raiva. Segundo ele, a Guarda Nacional e o Exército "vieram com pás novas para fazer simulações", mas sem oferecer apoio real. O conjunto residencial popular onde ocorreu o desabamento foi projetado pelos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro.
Lázaro Cardozo, de 67 anos, que procura Fabiana, filha de sua prima, responsabiliza esses governos e a atual presidente interina, Delcy Rodríguez. "Faço um chamado ao que se chama governo neste país para que acelere. Há tanto dinheiro, a Venezuela é milionária", enfatizou antes de desabar em pranto. Cardozo está convencido de que os prédios desabaram por construção negligente: "Eles se dedicaram apenas a fazer populismo, a construir sem bases, sem consciência, apenas por um voto".
Terremotos deixaram mais de 3.800 mortos e milhares de desaparecidos
Os terremotos de magnitude 7,2 e 7,5, sentidos consecutivamente a partir das 18h04 locais de 24 de junho, deixaram mais de 3.800 mortos e milhares de desaparecidos. "Estou em choque, paralisado", comentou Cardozo, reafirmando seu compromisso de encontrar Fabiana: "Não vamos deixá-la aqui".
A poucos metros, Ocando continuava cavando, movido pelo desespero de recuperar os corpos de seus filhos.



