A região Sul do Brasil se prepara para fortes tempestades a partir de quinta-feira (16/07), com possibilidade de granizo e rajadas de vento entre 60 e 100 km/h. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu um aviso de perigo potencial para tempestades válido para quinta-feira, abrangendo o oeste e o sul do Rio Grande do Sul. As condições meteorológicas devem piorar entre sexta-feira e sábado, quando um novo aviso de perigo cobre praticamente todo o estado, incluindo a Região Metropolitana de Porto Alegre.
Jato de Baixos Níveis intensifica tempestades
Um dos fatores que contribuirá para as tempestades é o Jato de Baixos Níveis (JBN), fenômeno conhecido como "rios atmosféricos" ou "rios voadores". O JBN é uma corrente intensa de ventos que atua no interior da América do Sul, em altitudes entre 1 e 3 km, transportando ar quente e úmido da Amazônia em direção ao Centro-Sul do continente. Segundo o Inmet, esse sistema fornece calor e umidade para a formação e intensificação das tempestades. "Quando o JBN interage com sistemas frontais provenientes do sul do continente, ocorre um aumento da convergência de umidade e da instabilidade atmosférica, favorecendo a ocorrência de tempestades severas", afirma o Inmet em nota à BBC News Brasil. "No episódio previsto para começar na quinta-feira, espera-se que o JBN atue de forma intensa sobre a Região Sul."
Cemaden prevê chuvas consecutivas
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) também prevê fortes chuvas para a região Sul. "A partir de quinta-feira vai passar uma frente fria e essa frente vai ficar estacionária até provavelmente segunda-feira. Então vão ser vários dias consecutivos de chuva. Os volumes totais são relativamente importantes", disse à BBC News Brasil o coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden, Marcelo Seluchi. Ele acrescenta que o fenômeno dos "rios voadores" deve ter alguma influência, mas que nesta época do ano — o inverno — o transporte de umidade da Amazônia para o Sul é menor. "Estamos numa época mais fria, uma época bem mais seca. Então esse transporte nesta época não é tão importante, embora vai ter sim uma certa influência."
Chile também será afetado
O Chile também deve ser afetado por "rios voadores" no fim de semana. A empresa MetSul Meteorologia afirma que um poderoso rio atmosférico está avançando pelo Oceano Pacífico rumo à América do Sul, devendo atingir o Chile com chuva extrema, tempestades, ventos intensos e fortes nevadas na Cordilheira dos Andes. "O rio atmosférico deverá alcançar categoria 4 e, em alguns momentos, categoria 5, o nível máximo da escala utilizada para classificar estes corredores de vapor d'água. Sistemas dessa intensidade conseguem transportar enormes volumes de umidade desde as regiões tropicais do Oceano Pacífico até a costa Oeste da América do Sul", afirma a MetSul. As regiões mais afetadas devem ser Coquimbo, Valparaíso, Metropolitana, O'Higgins, Maule, Ñuble e Biobío.
O que são rios atmosféricos
Os "rios atmosféricos" ou "rios voadores" são colunas longas e largas de vapor d'água que emergem dos trópicos e se movem em direção aos polos. Carregam cerca de 90% do vapor d'água total que se move pelas latitudes médias da Terra. Cientistas atribuem algumas tempestades de grande intensidade a esses fenômenos, que estão ficando mais intensos, longos, largos e destrutivos. Segundo a Nasa, eles colocam centenas de milhões de pessoas sob risco de inundação em todo o mundo. Nem todos os rios atmosféricos causam danos; alguns têm papel importante na regulação de chuvas de determinadas regiões. Na América do Sul, "rios voadores" formados pela umidade que se evapora da Floresta Amazônica causam chuvas a mais de 3 mil km de distância, chegando ao sul do Brasil, Uruguai, Paraguai e norte da Argentina. Nessas regiões, são considerados vitais para a produção agrícola e a vida de milhões de pessoas, e o desmatamento da Amazônia é visto como ameaça ao funcionamento do sistema.
Características e impacto dos rios atmosféricos
Um rio atmosférico médio tem cerca de 2 mil km de comprimento, 500 km de largura e quase 3 km de profundidade, embora estejam ficando mais largos e longos, alguns com mais de 5 mil km de comprimento. São invisíveis ao olho humano, diferentemente das nuvens. "Eles podem ser vistos com frequências infravermelhas e de micro-ondas", diz Brian Kahn, pesquisador atmosférico do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa. "É por isso que a análise de satélite pode ser tão útil para observar vapor de água e rios atmosféricos ao redor do mundo." Rios atmosféricos grandes e fortes podem mover umidade a uma taxa de descarga 15 vezes maior que a do Mississippi, o maior rio da América do Norte. Em média, têm cerca de duas vezes o fluxo regular do Amazonas, o maior rio do mundo em volume de descarga de água.
Aquecimento global intensifica rios atmosféricos
Embora os rios atmosféricos sempre tenham existido, os cientistas dizem que o aquecimento global está criando mais vapor de água, tornando-os mais intensos e capazes de despejar grandes quantidades de água na terra em curto espaço de tempo, desencadeando inundações e deslizamentos catastróficos. Estudos mostram que o vapor de água atmosférico global aumentou em até 20% desde a década de 1960 e segue aumentando com a temperatura. Um estudo do Instituto de Geociências da Universidade de Potsdam, na Alemanha, descobriu que as condições de rios atmosféricos na América do Sul tropical, Norte da África, Oriente Médio e Sudeste Asiático estão durando mais, o que pode significar aumento na quantidade de chuva com efeitos prejudiciais. Foi o que aconteceu no Oriente Médio em abril de 2023, segundo estudo da Universidade Khalifa, nos Emirados Árabes Unidos. "Nossas simulações de alta resolução revelaram a presença de rios atmosféricos que geraram forte precipitação à medida que se moviam em altas velocidades do nordeste da África para o oeste do Irã", concluiu o estudo.
Rios atmosféricos na Amazônia
Na região amazônica, a umidade geralmente se origina na Floresta Amazônica e toma a forma de rios atmosféricos em latitudes mais altas. Ao se moverem em direção aos Andes, os rios voadores enfrentam a barreira das montanhas e são redirecionados para o centro-oeste, sudeste e sul do Brasil, bem como para o norte da Argentina, Uruguai, Paraguai, Colômbia, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa e Suriname. Mas a umidade da Amazônia não é o único sistema climático presente. "Também é influenciado pelo cinturão de chuva equatorial com ventos alísios e a Cordilheira dos Andes", diz Deniz Bozkurt, meteorologista da Universidade de Valparaíso no Chile, especialista em rios atmosféricos. "Esses elementos juntos podem guiar a umidade, fazendo-a viajar para o sul, levando a chuvas pesadas e inundações em outras regiões." Ele complementa: "Quando essas condições se alinham com condições favoráveis, como a formação de frentes frias em latitudes ao sul, podemos observar rios atmosféricos 'típicos' transportando umidade da Amazônia para o sudeste e em direção ao Atlântico, causando chuvas significativas." Segundo Bozkurt, esses rios podem transportar grandes quantidades de água doce da bacia amazônica para outras regiões da América do Sul e latitudes médias, e em alguns casos, até atingir as costas da Antártida e da África do Sul.
Papel e ameaça dos rios voadores
Esses rios no céu, originados da umidade da Amazônia, em circunstâncias normais, desempenham papel fundamental no equilíbrio de temperaturas e níveis de umidade em altitudes mais elevadas, como no sul do Brasil. Cientistas atmosféricos dizem que esses rios voadores previnem a desertificação e sustentam a biodiversidade na região, embora também possam levar a chuvas pesadas. No entanto, o desmatamento tem representado um desafio significativo para o sistema climático da região e seu impacto positivo na biodiversidade. A destruição das florestas pode reduzir significativamente a quantidade de vapor d'água que forma os rios atmosféricos, que por sua vez transportam a umidade. "E isso causa efeitos climáticos negativos tanto localmente quanto em outras partes da América do Sul."



