Um estudo de epidemiologistas chineses mostra que, caso a China reverta a política de covid zero, a onda de infecções pela cepa Ômicron e suas variantes pode causar 1,5 milhão de mortes. O número de pacientes que precisariam ser internados em unidades de terapia intensiva pode ser 15 vezes maior que a capacidade do sistema hospitalar local. Em meio a protestos populares, o país está encurralado pela covid enquanto o mundo volta à normalidade.
O dilema chinês: manter lockdown ou abrir mão do controle?
Desde o início da pandemia, a China adotou uma política de contenção radical que dura até hoje. Cidades são fechadas quando surgem casos: testagem em massa, pessoas isoladas em casa, viagens proibidas. Até agora funcionou, e os casos e mortes na China são poucos frente à sua enorme população. Porém, com a chegada da variante Ômicron, o problema se tornou enorme.
Apesar de altas taxas de vacinação — até abril, 91,4% das pessoas com mais de 3 anos estavam totalmente vacinadas e 53,7% haviam recebido dose de reforço —, os cientistas acreditam que a imunidade vacinal da população não é capaz de segurar a Ômicron. A razão é simples: a China foi um dos poucos países que nunca utilizaram vacinas de mRNA. Vacinas como a Coronavac, que já eram menos eficazes para a cepa original, protegem muito pouco contra a Ômicron e suas variantes. Como resultado, grande parte da população é suscetível ao Sars-CoV-2.
O impasse e as soluções propostas pelos cientistas
Se a China continuar com a política de covid zero, sua economia continuará a sofrer e o governo terá de enfrentar a ira da população, que observa o mundo sem máscara. Se relaxar, serão milhões de mortos e hospitais sem capacidade de atendimento. O interessante é que os cientistas chineses que fizeram o estudo propuseram seis cenários modelados. Com exceção de uma única proposta, todas as outras — que incluem vacinação de 100% dos idosos, isolamento parcial e fechamento de escolas — não reduzem em 50% o impacto de um surto de Ômicron.
Somente a vacinação de 100% da população com uma vacina de 89% de eficácia pode reduzir as mortes de 1,5 milhão para 200 mil e as internações em UTIs de 2,5 milhões para aproximadamente 100 mil. Ou seja, somente vacinando toda a população com vacinas de mRNA a China pode sair do impasse. Tudo indica que a China vai ter de se curvar à tecnologia ocidental. Nesse aspecto, acertaram países que, como o Brasil, iniciaram a imunização com vacinas de vírus inativado e em seguida migraram para as de mRNA.
Contexto global: a estratégia de covid zero versus controle
Nas primeiras semanas após o surgimento do SARS-CoV-2, ficou claro que não era um vírus que poderia ser simplesmente suprimido isolando os casos. O problema para os governos era decidir entre duas estratégias: deixar que ele se espalhasse de maneira lenta e controlada, de modo a não sobrecarregar o sistema hospitalar, ou tentar manter o número de casos próximo a zero com medidas drásticas de isolamento. Caso o governo acreditasse que uma vacina eficaz seria desenvolvida rapidamente, o correto seria adotar uma política de covid zero, evitando ao máximo o número de mortes até a vacina estar disponível. Em seguida, vacinaria toda a população e relaxaria a política. Foi isso que a Nova Zelândia fez. Por outro lado, se não fosse possível obter uma vacina rapidamente, o correto seria controlar o espalhamento do vírus e permitir que a imunidade de rebanho fosse criada pela infecção, como fizeram Alemanha e Inglaterra.
As vacinas foram desenvolvidas em pouco mais de um ano, e os países que fizeram lockdown e vacinaram imediatamente com as melhores vacinas sofreram o menor número de mortes per capita. A China, no entanto, manteve a política de covid zero rígida, mas sem utilizar vacinas de mRNA, o que a deixou vulnerável à Ômicron.



