Jogadores argentinos erguem faixa das Malvinas e reacendem disputa
Jogadores argentinos erguem faixa das Malvinas

Na quarta-feira (15), a imagem de jogadores da Argentina erguendo uma faixa com a frase “As Malvinas são argentinas” após a vitória por 2 a 1 sobre a Inglaterra, na semifinal da Copa do Mundo de 2026, percorreu o mundo. O ato, que pode gerar punições da Federação Internacional de Futebol (Fifa), reacendeu a discussão sobre a posse do arquipélago ultramarino, reivindicado pela Argentina, mas administrado pela Grã-Bretanha. Neste domingo (19), a seleção argentina busca o quarto título mundial contra a Espanha.

Reações e significado do gesto

“O gesto dos jogadores, de exibir para o mundo inteiro uma bandeira confeccionada por um torcedor a partir de um lençol de hotel tornou-se um feito compartilhado por todo o povo argentino”, afirmou à Agência Brasil a diplomata e ex-embaixadora da Argentina no Reino Unido, Alicia Castro. Ela comparou o ato ao do técnico egípcio Hossam Hassan, que ergueu uma bandeira da Palestina sem ser punido, pois a Palestina é afiliada à Fifa.

As Ilhas Malvinas/Falklands, a 500 km da costa argentina, são administradas pelo Reino Unido, mas a Argentina as considera parte de seu território. A ONU defende uma solução pacífica. Em 1982, os países travaram uma guerra de 74 dias com centenas de mortos, a maioria argentinos. A derrota é vista como uma “ferida aberta”. Na Copa de 1986, a vitória sobre a Inglaterra com dois gols de Maradona foi encarada como revanche.

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Malvinas no imaginário popular

O cientista político Leandro Gabiati, diretor da Dominium Consultoria e torcedor do Boca Juniors, disse que as Malvinas estão presentes nos cânticos das torcidas e em campeonatos. “A torcida da seleção traz essas lembranças, assim como os clubes locais. Todos fazem alguma menção à questão das Malvinas”, afirmou. “Essa é uma agenda que unifica o país, está acima de qualquer divergência ideológica.”

O colunista Simon Jenkins, no jornal The Guardian, pediu negociação entre os países, destacando que o território custa aos contribuintes britânicos mais de 60 milhões de libras anuais. O embaixador Guillermo Carmona, ex-secretário das Malvinas no governo argentino (até 2023), considera a gestão britânica anacrônica. “Isso não pode continuar indefinidamente”, afirmou. Para ele, a abertura da faixa foi um ato de “soft power” para destravar negociações.

Críticas à Fifa e possíveis punições

“O gesto dos jogadores deveria despertar os diplomatas britânicos de sua inércia e forçá-los a confrontar uma realidade geográfica e histórica inescapável”, reiterou Carmona. Castro acrescentou que a faixa demonstrou que “a luta contra o colonialismo permanece um imperativo ético”.

Os entrevistados consideram hipocrisia qualquer punição solicitada por autoridades britânicas. Carmona avaliou que a Fifa aplica regras conforme a conveniência: “baniu a Rússia por motivos geopolíticos, cedeu aos EUA para suspender sanções a jogadores e maltratou o Irã por razões alheias ao esporte”. A Fifa não comentou as críticas e afirmou que o Comitê Disciplinar Independente avalia os relatórios da partida. Em 2014, a entidade multou a Associação do Futebol Argentino (AFA) em US$ 33 mil por faixa similar antes de um amistoso contra a Eslovênia.

Posição do governo argentino

O presidente Javier Milei disse à Rádio El Observador que compreende os sentimentos dos jogadores e considera o ato “válido e lícito”. Prometeu esforços diplomáticos para recuperar o território: “As Malvinas são argentinas e nós vamos recuperá-las”.

Histórico das Ilhas Malvinas/Falklands

Originalmente pertencentes à Espanha, as ilhas foram ocupadas por franceses e ingleses. Após a independência argentina em 1816, o país herdou o arquipélago, mas a administração foi expulsa pelos ingleses em 1833, que buscavam passagem entre os oceanos e uma base militar. Hoje, o local é disputado por riquezas minerais, como petróleo. A questão ganhou força no governo Perón (1946-1955). Em junho de 2026, a ONU reiterou a necessidade de uma solução pacífica, como faz desde 1989.

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