O longa-metragem gaúcho Futuro Futuro, dirigido por Davi Preto, foi o grande vencedor do Festival de Brasília, levando o prêmio principal. A obra é uma distopia que aborda o avanço descontrolado da inteligência artificial e seus efeitos sobre a memória humana, em meio a um cenário de crise climática e desumanização.
A trama distópica
No filme, uma nova síndrome neurológica faz com que as pessoas percam totalmente a memória. Como solução, um dispositivo artificial é capaz de fornecer memórias aos afetados — uma espécie de prótese para a mente. O protagonista, K. (interpretado por Zé Maria Pescador), vagueia sem identidade até ser acolhido por Silvio (João Carlos Castanha), um clicworker de 60 anos, termo usado para designar trabalhadores precários de gigantes da tecnologia. A narrativa se desenrola em um mundo onde não há mais perspectivas, apenas a espera pelo fim. Enquanto isso, as pessoas dançam ao som de techno music, em uma atmosfera de apocalipse iminente.
Referências culturais e o sentido de K.
O personagem K. remete inevitavelmente a Joseph K., de Franz Kafka, figura que enfrenta um sistema judicial incompreensível. No filme, esse mecanismo indecifrável é o próprio mundo contemporâneo, regido pela tecnologia e pelo capitalismo desregulado. O diretor também dialoga com Melancolia, de Lars von Trier, ao usar imagens de condomínios altíssimos que apagam suas luzes, prenunciando o fim. Essas construções, inspiradas em Dubai, simbolizam uma nova arquitetura brasileira que isola os ricos dos comuns mortais.
Impacto da realidade brasileira
Durante as filmagens, a equipe enfrentou as enchentes no Rio Grande do Sul, um elemento distópico real causado pelas mudanças climáticas e pela negligência das autoridades. Esse evento, descrito como um "Real lacaniano" — aquilo que resiste à simbolização —, adiciona camadas de significado à obra. O filme não apenas especula sobre o futuro, mas reflete crises atuais, como a precarização do trabalho e a degradação ambiental.
Como observou o teórico Mark Fisher, "é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo". Futuro Futuro materializa essa ideia ao retratar um mundo que espera o apocalipse sem vislumbrar alternativas ao sistema vigente. O cinema busca uma linguagem para expressar esse derretimento global, e a obra de Davi Preto contribui significativamente para esse debate.
Estética e mensagem
Visualmente, o filme impressiona pelo uso de imagens geradas por inteligência artificial, que reforçam a sensação de artificialidade e desumanização. A trama não oferece saídas reformistas nem revolucionárias; ao contrário, sugere que a humanidade cruzou um limite irreversível nas esferas política, econômica e ambiental. Futuro Futuro é, portanto, uma reflexão sobre o colapso iminente e a perda de sentido, onde o personagem K. navega sem rumo, à espera do Nada.



