De acordo com reportagem do Financial Times publicada neste sábado, as duas Coreias aceleram a disputa para construir submarinos de propulsão nuclear. A Coreia do Sul intensifica negociações com os Estados Unidos para obter tecnologia que permita desenvolver seus próprios vasos de guerra, enquanto a Coreia do Norte, que já detém arsenal nuclear, busca ampliar sua capacidade de dissuasão naval.
Submarinos movidos a reator nuclear são considerados o ápice da dissuasão militar. Eles conseguem permanecer submersos por meses, sem necessidade de reabastecimento, e podem lançar mísseis balísticos de qualquer ponto dos oceanos. Atualmente, apenas seis países dominam essa tecnologia — Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido e Índia. A entrada de mais uma nação nesse seleto grupo mudaria de forma drástica o equilíbrio de poder na Ásia Oriental.
Seul e a busca por tecnologia americana
Na Coreia do Sul, o projeto enfrenta obstáculos tecnológicos, diplomáticos e orçamentários. Segundo a reportagem, Seul está em diálogo avançado com Washington para obter autorização de transferência de tecnologia de reatores nucleares navais, passo considerado essencial para qualquer programa do tipo. O país já opera uma frota de submarinos convencionais modernos, com construção local, mas a propulsão nuclear envolve componentes que jamais foram produzidos na indústria sul-coreana.
O Ministério da Defesa sul-coreano não confirmou oficialmente as negociações, mas o governo do presidente Yoon Suk-yeol tem tratado o assunto como prioridade estratégica. O principal argumento é a necessidade de rastrear ameaças vindas da Coreia do Norte, que já demonstrou capacidade de lançar mísseis a partir de plataformas submersas. Além disso, Seul quer reduzir sua dependência do chamado guarda-chuva nuclear americano, que hoje garante a segurança do país diante do programa atômico do vizinho.
O custo do projeto também é um tema sensível. Especialistas estimam que o desenvolvimento de um submarino de propulsão nuclear pode superar, com folga, o valor de um submarino convencional de última geração. Em um momento de pressão fiscal e de disputa por recursos com programas sociais e de defesa territorial, o governo precisa calibrar os investimentos para não comprometer o orçamento militar como um todo.
Pyongyang e os avanços nos estaleiros
A Coreia do Norte, por sua vez, não esconde a ambição de ter uma frota de submarinos de ataque nucleares. Pyongyang vem apresentando em desfiles militares embarcações de grande porte e realizando testes de mísseis com lançamentos de silos submersos. O programa de mísseis balísticos lançados de submarino (SLBMs) tem atraído atenção das agências de inteligência sul-coreanas e americanas, que monitoram cada movimento dos estaleiros de Sinpo, onde ficam baseados os principais submarinos do país.
A Coreia do Norte já demonstrou progressos no desenvolvimento de SLBMs, mas analistas apontam que ainda há dúvidas sobre a capacidade de realizar lançamentos a partir de um submarino nuclear. O regime de Kim Jong-un investe pesado em estruturas subterrâneas e em embarcações que possam servir de plataforma para ataques de retaliação, mesmo após um primeiro golpe convencional. A construção de um submarino nuclear daria a Pyongyang uma capacidade de sobrevivência muito maior, dificultando a detecção e a destruição da força de dissuasão norte-coreana.
A instabilidade política e o histórico de desafios às resoluções do Conselho de Segurança da ONU tornam qualquer avanço norte-coreano no setor uma preocupação global. Há ainda a possibilidade de testes nucleares adicionais ou de lançamentos de mísseis como resposta a movimentos de Seul e Washington, elevando a tensão na península.
O impacto regional da corrida
Uma eventual corrida submarina nuclear entre as Coreias teria efeitos imediatos em toda a região. Japão e Taiwan acompanham os desdobramentos com atenção, e a resposta dos Estados Unidos pode incluir novos acordos de compartilhamento de dados, exercícios conjuntos e o posicionamento de ativos navais no Pacífico. A China, que já mantém sua própria frota nuclear, também observa com preocupação a possibilidade de mais um vizinho armar-se com submarinos desse tipo.
Os Estados Unidos sempre adotaram controle rigoroso sobre a tecnologia nuclear naval. Até hoje, o governo americano só compartilhou esse tipo de segredo com o Reino Unido, em um acordo especial firmado na década de 1950. A eventual aprovação de transferência para a Coreia do Sul marcaria uma mudança histórica na política de não proliferação nuclear, com impacto em aliados como Austrália e Japão, que também buscam fortalecer suas marinhas.
Especialistas em segurança internacional alertam que a proliferação de submarinos nucleares, mesmo entre potências aliadas, pode minar os esforços de desnuclearização da Península Coreana. Ao mesmo tempo, a falta de uma resposta ocidental ao programa norte-coreano tende a encorajar Seul a buscar garantias próprias de dissuasão. Esse dilema deve marcar os próximos capítulos da disputa, que vinha se desenvolvendo longe dos holofotes e agora ganha destaque na agenda diplomática regional.
Diplomatas da região esperam que os próximos meses sejam decisivos para definir o ritmo da corrida. As negociações entre Seul e Washington permanecem no máximo sigilo, mas sinais concretos podem surgir com a divulgação de orçamentos de defesa ou com novos testes militares. Se o projeto sul-coreano sair do papel, a Ásia Oriental passará a ter um novo cenário de dissuasão, com três grandes potências nucleares navais — China, Coreia do Norte e Coreia do Sul — operando em águas cada vez mais disputadas.



