Mesmo sem a seleção nacional em campo, a China se tornou um dos epicentros globais da febre da Copa do Mundo 2026. O país asiático, que não se classificou para o torneio, registra números impressionantes de audiência, consumo e investimento, impulsionados por uma combinação de estratégias de mídia, marketing corporativo e ações governamentais.
Transmissão recorde e audiência massiva
A CCTV, emissora estatal chinesa, adquiriu os direitos de transmissão de todas as 104 partidas do Mundial, transmitindo os jogos em seus canais abertos e plataformas digitais. Segundo dados da própria emissora, a audiência acumulada nas primeiras duas semanas superou 1,2 bilhão de telespectadores, um recorde histórico para o país em eventos esportivos internacionais. A final, que será realizada em 19 de julho, deve bater novos recordes.
Além da TV tradicional, plataformas de streaming como Tencent Video e iQiyi também exibiram os jogos ao vivo, com picos de 80 milhões de usuários simultâneos em partidas de seleções populares, como Brasil e Argentina. O horário favorável (jogos ocorrem entre 20h e 23h, horário de Pequim) contribuiu para o engajamento.
Turismo e consumo: chineses viajam para o Mundial
Embora a seleção chinesa não esteja no torneio, milhares de chineses viajaram para os Estados Unidos, Canadá e México, países-sede, para acompanhar os jogos. A agência de viagens online Ctrip reportou um aumento de 340% na busca por passagens aéreas para as cidades-sede em comparação com o mesmo período de 2022. Estima-se que mais de 200 mil chineses tenham visitado os estádios durante a fase de grupos, muitos vestindo camisas de outras seleções, especialmente Brasil e Argentina.
O consumo de produtos relacionados também disparou. A plataforma de e-commerce Alibaba registrou um crescimento de 280% nas vendas de camisas oficiais da Copa, bandeiras e souvenirs. As réplicas da camisa da seleção argentina, de Lionel Messi, foram as mais vendidas, seguidas pela do Brasil.
Patrocínios de empresas chinesas batem recorde
Empresas chinesas se tornaram as maiores patrocinadoras da Copa do Mundo 2026. De acordo com a consultoria SponsorUnited, o investimento total de marcas chinesas no torneio ultrapassou US$ 1,2 bilhão, superando os US$ 800 milhões de 2022. Entre os principais patrocinadores estão a montadora BYD, a fabricante de eletrônicos Hisense, a plataforma de vídeo TikTok (da ByteDance) e a marca de bebidas Wahaha.
"A Copa do Mundo é a plataforma de marketing mais poderosa do mundo para alcançar consumidores globais. Para as empresas chinesas, é uma oportunidade de construir reconhecimento de marca e mostrar inovação", afirmou Li Wei, analista da consultoria de mercado China Insights. As marcas chinesas têm aproveitado o torneio para promover veículos elétricos, smartphones e serviços de streaming.
Estratégia governamental e diplomacia esportiva
O governo chinês também entrou na onda, promovendo uma série de eventos paralelos. Em Pequim, foi montada uma "Fan Zone" oficial em parceria com a FIFA, que recebeu mais de 500 mil visitantes nos primeiros 15 dias. Telões transmitem os jogos ao vivo, e há apresentações culturais e feiras gastronômicas. A iniciativa faz parte da estratégia de "diplomacia esportiva" do país, que busca fortalecer laços com as nações participantes.
"A China quer mostrar que é um ator global relevante, mesmo quando não está em campo. A Copa é uma vitrine para o soft power chinês", disse Zhang Ming, professor de relações internacionais da Universidade de Pequim, em entrevista ao jornal China Daily. A presença de empresas e da cultura chinesa no torneio é vista como um passo para uma eventual candidatura do país a sediar a Copa do Mundo no futuro.
Impacto econômico e projeções futuras
O entusiasmo chinês pelo Mundial tem gerado impactos econômicos significativos. O setor de turismo e varejo deve movimentar cerca de 50 bilhões de yuans (aproximadamente US$ 7 bilhões) durante o torneio, segundo estimativas do Ministério do Comércio chinês. As vendas de televisores e telões de alta definição cresceram 150% em junho e julho, impulsionadas pela demanda por assistir aos jogos em casa.
Para o futuro, a China já sinalizou interesse em sediar a Copa do Mundo de 2034 ou 2038. "A experiência de 2026 mostra que o país tem capacidade de engajamento e infraestrutura para um evento desse porte", concluiu Li Wei. Enquanto isso, a febre chinesa pela Copa segue firme, mesmo sem a seleção nacional em campo, consolidando o país como um dos maiores mercados do futebol mundial.



