Um relatório da ONU aponta 129 execuções confirmadas de prisioneiros de guerra ucranianos por forças russas. O governo ucraniano alega que o número real é muito maior e denuncia que Moscou tem aumentado o ritmo das execuções. Na última mensagem que Lyudmyla Dubnytska recebeu de seu marido, ele disse que provavelmente estava prestes a ser capturado. Dois dias depois, ela reconheceu o corpo dele em um vídeo nas redes sociais que mostrava um grupo de soldados ucranianos mortos.
O caso de Andriy Dubnytsky
Andriy Dubnytsky, de 25 anos, morreu em fevereiro de 2024. Na ocasião, tropas ucranianas se retiravam da cidade de Avdiivka, então epicentro de combates no leste da Ucrânia. Ferido durante uma tentativa de retirada, o soldado da 110ª brigada permaneceu em sua posição com cinco companheiros, incluindo quatro que também estavam feridos. Quando ligou para a esposa em 15 de fevereiro, 'estava extremamente nervoso e chorava', contou Liudmyla, de 27 anos, à AFP. Para manter o ânimo, o casal combinou de ter um filho quando se reencontrasse. Horas depois, Andriy enviou uma mensagem dizendo que o grupo provavelmente seria capturado. Pouco depois, parou de responder.
Crimes cada vez mais comuns
A 110ª brigada afirmou que vários soldados, entre eles Dubnytsky e Ivan Zhytnyk, foram assassinados e acusou as forças russas de violar um acordo para a retirada dos militares. A Procuradoria ucraniana abriu uma investigação sobre o 'assassinato de prisioneiros de guerra ucranianos desarmados'. As autoridades ucranianas apontam que não se trata de um incidente isolado. Vários funcionários do governo ucraniano disseram que, a partir de 2023, as tropas russas aumentaram o ritmo das 'execuções'. 'Isto se deve a uma política russa que, na prática, tem incentivado e facilitado este tipo de crime, e cujos comandantes têm dado ordens nesse sentido', declarou Andriy Atamantchuk, integrante da Procuradoria-Geral da Ucrânia e responsável por investigar execuções de prisioneiros de guerra.
Moscou rejeita acusações
Um relatório das Nações Unidas divulgado no mês passado menciona 129 execuções verificadas de prisioneiros de guerra ucranianos. A organização já havia alertado em 2025 sobre um 'aumento expressivo' dos casos. Kiev abriu até o momento 116 inquéritos para apurar a morte de 306 militares ucranianos desde 2022, segundo Atamantchuk. Ele destaca, no entanto, que o número real é provavelmente muito maior. Um funcionário do serviço de inteligência ucraniano afirmou que o país registrou 'mais de 900 militares' mortos em 'mais de 340' incidentes desde 2022. Sob a condição de anonimato, ele acrescentou que isso poderia representar 'entre 25% e 40%' dos casos. As fontes explicaram que a diferença dos números se deve à metodologia. A Procuradoria afirmou que se baseia em 'fatos documentados e comprovados', enquanto os serviços de inteligência recebem 'informações mais rapidamente' de unidades na linha de frente e de outras fontes. As autoridades russas não responderam a um pedido da agência AFP para comentar as acusações. Moscou costuma rejeitar acusações de crimes de guerra, ao mesmo tempo que acusa Kiev de cometer as mesmas infrações.
Busca por justiça
Nos termos das Convenções de Genebra, soldados são considerados prisioneiros de guerra — com a concessão das proteções correspondentes — a partir do momento em que se rendem de forma inequívoca. A Ucrânia afirma que, na maioria dos casos, as vítimas foram assassinadas a tiros. Em 2023, um vídeo que viralizou nas redes sociais mostrava um soldado russo atirando em um militar ucraniano depois que este gritou 'Glória à Ucrânia'. Até o momento, apenas cinco soldados russos foram condenados na Ucrânia — dois deles à revelia —, segundo o procurador Atamantchuk. Ele afirma ainda que gostaria de entregar algum tipo de 'justiça' às famílias, nem que seja apresentando 'os nomes de quem matou seus entes queridos'. Dubnytska diz, sem conter as lágrimas, que conhecer a identidade do assassino de seu marido seria 'inútil'. 'Não sei como isso me aliviaria, mesmo que algum dia eu soubesse quem fez isso'.



