Venezuelanos abrigados na Casa de Passagem de Rio Branco, no Acre, vivem momentos de apreensão desde que terremotos atingiram a Venezuela na quarta-feira (24). Eles aguardam notícias de familiares, enquanto lidam com a perda de entes queridos.
Relato de perda e desespero
Wendy Yomaira Dorante Jaramillo, de 45 anos, tem a mãe e um filho que moram em Caracas. Somente na manhã de quinta-feira (25) soube que estão bem, mas duas primas morreram. “Eu chorei muito, sinto tristeza e não consigo dormir. Não sofro só pela minha família, mas por toda a Venezuela. Meus parentes estão bem, mas duas primas morreram soterradas nos escombros. Está todo mundo desesperado. Evitam até enviar fotos, pois é tenebroso o que estão passando”, relata.
Dois tremores de magnitudes 7,2 e 7,5 foram registrados na noite de quarta-feira (24), com intervalo de menos de um minuto entre eles. Segundo Wendy, as casas onde vivem seus familiares tiveram paredes danificadas, e parte da família precisou deixar os imóveis por medo de novos desabamentos. Como o país enfrenta falta de energia elétrica e conexão de internet e telefone após os tremores, ela não conseguiu mais contato com algumas tias e primas, que seguem desaparecidas.
Medo e desabrigo na Venezuela
“Meus parentes colocaram os colchões na rua por receio de novos tremores, e os outros moradores também, inclusive mulheres grávidas em trabalho de parto. Até as famílias cujas casas não desabaram preferem ficar do lado de fora por medo de a estrutura ceder. É muito triste”, conta Wendy.
Outro venezuelano no Acre que passa pela angústia da espera por informações é o mestre de obras Jorge Luís Torres Cabrera, de 32 anos, natural de Caracas. Ele sabe apenas que estão vivas a mãe Dulce María Cabrera Hurtado, de 52 anos, e a filha dele, Yohargelis Luissianys Torres Suárez, de 12. Dos demais familiares, ainda não tem notícias.
Angústia e incerteza
“Fiquei tremendo, muito nervoso. Precisei tomar dois remédios para conseguir me acalmar. Nunca imaginei que isso fosse acontecer com o nosso povo. Vim [para o Brasil] em busca de uma vida melhor e para dar uma casa e uma realidade melhor para minha filha, e agora não sei se elas vão estar vivas até lá”, afirma Jorge.
Jorge e Wendy se conheceram durante a rota migratória, ainda no Equador, e seguem com o objetivo de chegar a Florianópolis, em Santa Catarina, onde esperam encontrar trabalho e recomeçar a vida. Apesar da mudança para o Brasil, praticamente toda a família permaneceu na Venezuela, como o pai e irmãos. Apenas um dos irmãos mora fora, na Espanha, há cerca de 12 anos, e é quem ajuda financeiramente a família.
Descoberta da tragédia
Conforme Jorge, ele descobriu sobre o terremoto por meio de um amigo, que enviou mensagens através de um aplicativo durante a noite. Até então, tentava conversar normalmente com os familiares e sequer sabia que a tragédia havia ocorrido. “Ele me enviou uma mensagem perguntando se meus parentes estavam bem. Não entendi. Foi quando ele me contou. Naquele instante, passei a procurar informações e tentar contato com a família repetidas vezes. Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida”, relembra.
Quando finalmente conseguiu falar com a mãe, já na manhã de quinta-feira, recebeu a notícia de que ela e os irmãos estavam vivos. Ainda assim, o cenário descrito pela família era de destruição total. Segundo ele, casas de vizinhos desabaram.
Caos e furtos na Venezuela
“Meu pai mora separado da minha mãe e continua sem dar notícias, assim como outros parentes. Essa angústia é o que nos mata. Como algumas pessoas deixaram as casas, gente maldosa está aproveitando para furtar os objetos. O país está vivendo um caos enquanto o povo morre”, lamenta.
Conforme o psicólogo da Casa de Passagem, Eduardo Oliveira, atualmente 56 pessoas estão abrigadas nos 11 dormitórios da unidade, e muitos dos moradores venezuelanos passaram horas tentando contato com familiares. “Cada um ficou no seu quarto tentando falar com a família, mas todos estavam preocupados, chorando e tentando saber notícias de quem ficou na Venezuela. Nosso trabalho, inicialmente, é ajudá-los a entrar em contato com os familiares e acalmá-los diante da tragédia”, ressalta.
Tremor sentido no Acre
Moradores da capital do Acre, Rio Branco, sentiram um leve tremor de terra durante os terremotos que atingiram a Venezuela. Um vídeo de uma moradora do bairro Xavier Maia mostra a água da piscina oscilando. Ao g1, o professor e pesquisador na área de geografia física da Universidade Federal do Acre (Ufac), Waldemir Lima dos Santos, explicou que a capital acreana está distante a 2,5 mil km do epicentro do terremoto e a abrangência do fenômeno está relacionada à força dos terremotos registrados em um intervalo curto de tempo no país vizinho. “A magnitude dele numa proporção de 7.5 e depois de 7.2, na verdade não foi só um terremoto, foram dois terremotos, no intervalo de tempo muito curto, coisa de 5 a 6 minutos de um para o outro. É algo extremamente raro ocorrer”, detalhou.



