The Guardian: Trump usa tarifas contra Brasil para atacar soberania do país
The Guardian: Trump usa tarifas contra Brasil para atacar soberania

O jornal britânico The Guardian publicou um editorial contundente sobre a relação entre Estados Unidos e Brasil, afirmando que o presidente americano Donald Trump utiliza ameaças tarifárias como instrumento político contra a soberania brasileira. O texto, divulgado nesta terça-feira, analisa o contexto das investigações comerciais americanas que podem resultar em novas tarifas sobre produtos brasileiros, incluindo ataques ao sistema de pagamentos Pix.

Ameaça tarifária como arma política

O governo dos EUA deve anunciar até esta quarta-feira se aplicará novas tarifas contra o Brasil, como parte de uma ampla investigação sobre práticas comerciais consideradas injustas pela Casa Branca. O editorial do The Guardian destaca que "a ameaça de tarifas de Donald Trump enquadra os esforços do Brasil para proteger sua democracia como uma prática comercial desleal — e confere ao bolsonarismo um palco em Washington".

Segundo o jornal, Trump rejeita a defesa que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz da soberania brasileira. "Lula quer que o Brasil tenha capacidade de fiscalizar a desinformação antidemocrática. Trump acredita que os EUA deveriam ter jurisdição sobre o espaço informacional do país", escreve o editorial.

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Embate sobre regulação digital

O texto faz referência direta à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de junho passado, que "reagiu às mentiras online que ajudaram a alimentar a tentativa fracassada de golpe de extrema-direita liderada por Jair Bolsonaro em 2023". A corte determinou que plataformas de redes sociais podem ser responsabilizadas por postagens de usuários, obrigando empresas como X (de Elon Musk) e Meta (de Mark Zuckerberg) a remover discurso de ódio e conteúdo antidemocrático.

"Um mês depois, Donald Trump propôs uma tarifa de 25% sobre as importações brasileiras, queixando-se de que os juízes haviam obrigado empresas de tecnologia dos EUA a retirar do ar material 'político'", afirma o jornal britânico.

Pix: soberania financeira sob ataque

O editorial também aborda os ataques dos EUA ao Pix, sistema de pagamentos instantâneos brasileiro. "Outra questão de soberania diz respeito a quem controla a infraestrutura financeira do Brasil e se é possível existir, na América Latina, uma infraestrutura pública de pagamentos bem-sucedida que não esteja sob controle americano", escreve o The Guardian.

O texto destaca que, assim como a Índia, o Brasil construiu uma infraestrutura pública digital projetada para reduzir a dependência de redes controladas por estrangeiros. "Na prática, o sistema contorna as redes de cartão nos moldes da Visa e da Mastercard, ameaçando os lucros dessas empresas."

Cenário eleitoral e polarização

O jornal também comenta as eleições brasileiras, nas quais Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparecem na frente nas pesquisas. Flávio é descrito como "menos carismático que seu pai, mas baseado no mesmo antiesquerdismo simplista, nas mesmas políticas punitivas de 'lei e ordem' e nas mesmas guerras culturais de extrema-direita".

O pedido de Flávio Bolsonaro a Trump para que evite tarifas até as eleições de outubro foi classificado pelo Guardian como "extremamente audacioso". Já Lula é descrito como um dos políticos "mais bem-sucedidos deste século". "De operário a líder sindical e fundador de partido, Lula fez da redistribuição a linguagem da democracia brasileira. A pobreza extrema caiu de 30 milhões em 2002 para menos de 7 milhões atualmente."

Autonomia como 'infração'

O editorial conclui que "a verdadeira infração [do Brasil] não é o protecionismo, mas a autonomia". "Trump rebatizou essa soberania brasileira como discriminação comercial injusta. É tão previsível quanto preocupante que o bolsonarismo esteja disposto a embarcar nessa narrativa."

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