Terremoto 'duplo' na Venezuela: por que foi sentido forte em Manaus mas leve em RR
Terremoto na Venezuela: por que foi sentido forte em Manaus e leve em RR

Os terremotos que atingiram a Venezuela na quarta-feira (24) e deixaram mais de 100 mortos e cerca de 1,5 mil feridos foram sentidos no Norte do Brasil, mas de formas diferentes. Em Roraima, estado que faz fronteira com o país, os relatos foram de tremor de terra leve. Já no Amazonas, moradores perceberam objetos balançando e chegaram a evacuar prédios por conta própria.

Por que a diferença na percepção?

O pesquisador José Alexandre Nogueira, do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP), explicou ao g1 que a diferença está ligada a fatores como distância do epicentro, tipo de solo e características dos locais. Manaus está localizada na Bacia Sedimentar do Amazonas, região formada por camadas profundas de sedimentos como areia, argila e cascalho. Esse tipo de solo amplifica as ondas sísmicas.

“Um dos fatores principais para sentir os abalos sísmicos é a proximidade. Quanto mais perto do terremoto, a tendência é você sentir mais. Só que há outros fatores importantes. O segundo muito importante é onde geologicamente está inserido o local. Em Manaus, a cidade está na bacia sedimentar do Amazonas, no depocentro, região com maior espessura de sedimentos. Nessas áreas, as ondas sísmicas são amplificadas”, explicou.

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Formação geológica de Roraima atenua tremores

Roraima tem formação geológica diferente. O estado está sobre rochas cristalinas, mais antigas e densas. Por isso, mesmo mais próximo do epicentro, não sofre o mesmo efeito. “Essa especificidade do sítio geológico onde o município ou estado está inserido tem muita influência na amplificação ou na atenuação das ondas sísmicas que passam pelo local”, disse Nogueira.

Estrutura das cidades também influencia

Além da geologia, as características estruturais das cidades influenciam a forma como os tremores são sentidos. Manaus tem prédios altos, que oscilam mais durante a passagem das ondas sísmicas, tornando os abalos mais perceptíveis. Em Boa Vista, a maioria das construções é térrea.

“Quanto mais alto você mora, maior a sensibilidade e a amplitude que você vai ter das ondas, que você vai sentir. Então, cidades como São Paulo, por exemplo, que tem prédios muito altos, também influencia muito. Se você tem prédios mais altos, as pessoas vão tender a sentir mais”, explicou o sismólogo.

Horário do evento contribuiu para relatos

O horário do evento também pode ter contribuído para a quantidade de relatos. Segundo o especialista, as pessoas costumam perceber melhor os tremores quando estão paradas ou em repouso. Os dois terremotos ocorreram pouco após as 19h (horário de Brasília), durante a partida da Seleção Brasileira contra a Escócia na Copa do Mundo de 2026, o que pode ter feito parte da população não perceber os tremores em Roraima.

“Outra coisa que influencia é o horário em que acontece o terremoto. Então, aconteceu naquele horário em que todo mundo estava provavelmente sentado no sofá, talvez assistindo ao jogo do Brasil, todo mundo meio em casa. Em horários de pico, em que você está se deslocando, no trânsito, as pessoas sentem menos. É o que a gente espera”, ressaltou.

Outros estados também sentiram

Além de Roraima e Amazonas, os tremores também foram sentidos no Pará, onde moradores de diferentes bairros sentiram tremores, e no Amapá, onde pelo menos três prédios foram evacuados.

Os terremotos na Venezuela

Na noite de quarta-feira, dois terremotos atingiram em sequência o norte da Venezuela, onde fica a capital Caracas. Além das mortes, os tremores derrubaram prédios e deixaram um rastro de destruição na capital e arredores. Segundo autoridades, foram os mais fortes no país em mais de 100 anos.

Os dois terremotos ocorreram com menos de um minuto de diferença e a cerca de 5 quilômetros entre eles. O tremor mais forte teve epicentro em El Guayabo, a 168 km de Caracas. Eles desencadearam pelo menos 20 réplicas. A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, decretou estado de emergência. O Itamaraty disse que, até o momento, não há notícias de brasileiros entre as vítimas.

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