O técnico Lionel Scaloni insiste que a semifinal da Copa do Mundo de 2026 entre Argentina e Inglaterra é apenas um jogo de futebol, mas a história e os sentimentos dos argentinos tornam impossível separar a partida da Guerra das Malvinas, conflito de 1982 que deixou 649 argentinos mortos.
Scaloni tenta acalmar os ânimos
Em entrevista coletiva após a vitória sobre a Suíça, Scaloni afirmou: "É um jogo de futebol. A mensagem é que é um jogo de futebol. Não, não busquemos outra coisa. É um jogo de futebol. E vamos jogar um jogo de futebol contra uma grande seleção que tem um grande treinador a quem tenho grande apreço. Admiro muito a ele, e é um jogo de futebol. Nada mais que isso".
A declaração veio na véspera do confronto que revive a rivalidade histórica entre os dois países, marcada pelo conflito territorial nas Ilhas Malvinas, que permanecem sob controle britânico desde 1833.
A memória de 1986 e a "Mão de Deus"
Em 1986, o primeiro encontro após a guerra, o discurso dos argentinos era similar, mas Diego Maradona revelou depois que dentro do vestiário a realidade era outra: "A gente vivia dizendo que a partida de futebol não tinha nada a ver com aquilo, mas é o cara... Nunca ia ser só mais um jogo! Sabíamos que muitos garotos tinham morrido, que tinham sido abatidos a tiros como passarinhos. Aquele jogo era uma questão de revanche, e era assim que a gente encarava a situação".
Naquele jogo, Maradona marcou dois gols antológicos: a "Mão de Deus" e um golaço driblando metade do time inglês, levando a Argentina à vitória por 2 a 1.
Veteranos discordam de Scaloni
O jornalista Edgardo Esteban, ex-combatente das Malvinas, escreveu no site "Página 12" que Scaloni está errado. Ele relembra os abraços após os gols de Maradona: "Nós, que tínhamos voltado das ilhas, nos abraçamos, pensando nos nossos companheiros, naqueles que não tinham retornado, na derrota de 1982 e em um país que por tanto tempo escolheu nos ignorar".
Esteban argumenta: "Ninguém deve confundir uma partida de futebol com uma guerra. São coisas completamente diferentes. Mas também não se pode ignorar que existem símbolos, memórias e paixões capazes de expressar os sentimentos de um povo".
Malvinas no cotidiano argentino
A guerra é lembrada em muros, ônibus e estádios. O Estádio Malvinas Argentinas, em Mendoza, foi rebatizado após o conflito. A música da torcida na Copa de 2022 começa com: "Na Argentina nasci, terra de Diego e Lionel. Dos garotos das Malvinas que jamais esquecerei".
Em 2014, jogadores argentinos exibiram uma faixa com os dizeres "As Malvinas são argentinas" em um amistoso, gerando multa de 26 euros.
Omar De Felippe: futebol e guerra
O técnico Omar De Felippe, que lutou nas Malvinas em 1982, contou à revista "El Gráfico" sobre a experiência: "Éramos mais ou menos 100 (soldados) no chão do avião... Foi aí que dissemos: ‘A coisa é séria’". Ele viu a morte de perto quando uma bomba explodiu segundos após ele mudar de posto, e sobreviveu a um ataque mesmo após a rendição argentina.
De Felippe nunca cogitou se autoagredir para voltar, pois sonhava em jogar futebol profissionalmente: "Tinha a motivação de jogar no Huracán. Meu medo era perder um membro e não poder continuar jogando".
A posição dos veteranos
A Federação dos Veteranos da Guerra de 2 de Abril publicou comunicado afirmando que "futebol não é guerra", mas pediu compromisso com a "verdade histórica": "A bola rola, o orgulho pelas nossas cores multiplica-se, mas a memória permanece intacta. Jogamos pela glória esportiva, mas marchamos todos os dias pela verdade histórica".
Números do conflito
A Guerra das Malvinas durou 74 dias, de 2 de abril a 14 de junho de 1982, com 907 mortos: 649 argentinos, 255 britânicos e três civis. Desde então, Argentina e Inglaterra se enfrentaram seis vezes no futebol, três em Copas do Mundo (1986, 1998, 2002) e três amistosos, com vitórias para ambos os lados.
Scaloni, campeão mundial e admirado pela humildade, pode estar errado ao tentar separar futebol e história. A semifinal de 15 de julho já é histórica, e o jogo não será apenas sobre a bola.



