A crise política que a Colômbia enfrenta atualmente tem fortes paralelos com a que o Brasil viveu em 2022, afirma o professor de Gestão de Políticas Públicas da USP, Pablo Ortellado. Em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, Ortellado compara as ações do presidente colombiano Gustavo Petro às do ex-presidente Jair Bolsonaro, especialmente no que diz respeito à desconfiança sobre o sistema eleitoral.
Questionamentos sem provas
Petro, assim como Bolsonaro, tem questionado a legitimidade do processo eleitoral colombiano sem apresentar provas concretas. O presidente, que assumiu o cargo em agosto de 2022, alega que houve irregularidades nas eleições de 2022, nas quais foi eleito, e também nas eleições regionais de 2023. Segundo Ortellado, essa estratégia de desacreditar o sistema eleitoral é uma tática populista que mina a confiança pública nas instituições democráticas.
“A repetição desse padrão na Colômbia mostra como a desconfiança eleitoral se tornou uma ferramenta política na América Latina”, escreve Ortellado. “Sem evidências, os questionamentos de Petro criam um ambiente de incerteza e polarização.”
Tensões pós-eleitorais e manifestações
As consequências desses questionamentos já são visíveis. Após as eleições regionais de 2023, nas quais a situação de Petro perdeu em várias regiões, o presidente convocou manifestações contra o que chamou de “fraude eleitoral”. As manifestações, que ocorreram em outubro de 2023, reuniram milhares de apoiadores do governo, mas também geraram confrontos com a polícia e com grupos opositores.
Ortellado destaca que, assim como no Brasil, a resistência ao resultado eleitoral pode levar a uma crise institucional mais profunda. “Na Colômbia, a situação é agravada pela fragilidade das instituições e pela história de conflitos armados”, afirma o professor.
Fragilidade institucional na América Latina
A crise colombiana ilustra um problema mais amplo na região: a erosão da confiança nas instituições democráticas. Segundo Ortellado, tanto Bolsonaro quanto Petro se aproveitam de um sentimento de insatisfação popular para questionar os processos eleitorais, o que pode ter consequências duradouras para a estabilidade política.
“A democracia na América Latina já é frágil, e ataques à credibilidade das eleições só a enfraquecem ainda mais”, conclui o professor. A situação na Colômbia continua sendo monitorada de perto por analistas políticos, que temem que a escalada de tensões possa levar a uma crise semelhante à vivida pelo Brasil em 2022.



