O presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Breno Hermann, para consultas em Brasília, após declarações consideradas ofensivas do presidente argentino Javier Milei contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. A medida, anunciada nesta segunda-feira pelo Ministério das Relações Exteriores, representa um gesto de desagravo à dignidade do STF e reforça a posição brasileira de defesa da independência dos Poderes.
O episódio
Na última sexta-feira, durante um evento político em Córdoba, Milei referiu-se a Moraes como "um ditador disfarçado de juiz" e criticou duramente as decisões do magistrado no âmbito do inquérito das fake news e dos atos antidemocráticos. As falas geraram imediata reação no Brasil, com o Itamaraty emitindo nota de repúdio e exigindo explicações do governo argentino. A convocação do embaixador elevou o tom diplomático entre os dois países, que mantêm uma relação de forte interdependência econômica e política.
Reação de Lula e do governo brasileiro
De acordo com fontes do Palácio do Planalto, Lula considerou as declarações de Milei inaceitáveis e determinou que o embaixador retornasse ao Brasil para relatar os acontecimentos. "O presidente Lula entende que a soberania do Judiciário brasileiro não pode ser desrespeitada por nenhum líder estrangeiro", afirmou um assessor presidencial sob condição de anonimato. O chanceler Mauro Vieira também se reuniu com o embaixador argentino em Brasília para manifestar o descontentamento brasileiro. A atitude é vista como um recado claro de que o Brasil não tolerará interferências ou insultos dirigidos a suas instituições.
Contexto das tensões
A relação entre Lula e Milei nunca foi amistosa. Durante a campanha eleitoral argentina, Lula manifestou apoio ao candidato peronista Sergio Massa, enquanto Milei atacava abertamente o petista, chamando-o de "comunista" e "corrupto". Desde que assumiu a Presidência em dezembro de 2023, Milei tem mantido uma postura de confronto retórico com governos de esquerda na região, mas evitou rompimentos concretos. Contudo, as ofensas a Moraes — figura central na defesa da democracia brasileira após os atos de 8 de janeiro de 2023 — cruzam uma linha considerada sensível para o governo Lula.
Implicações diplomáticas
A convocação do embaixador é o primeiro ato diplomático de forte repercussão entre Brasil e Argentina na gestão Milei. Analistas avaliam que a medida pode esfriar ainda mais a relação bilateral no momento em que o Mercosul enfrenta desafios internos e externos. O Brasil busca evitar que o incidente afete negociações comerciais, mas deixa claro que a defesa de suas instituições é prioridade. A expectativa é que o embaixador Hermann permaneça em Brasília por alguns dias, enquanto o Itamaraty avalia os próximos passos. Não há, por ora, previsão de ruptura de relações, mas o clima entre os dois países tornou-se mais tenso.



