O empresário e advogado Abelardo de la Espriella venceu o segundo turno das eleições presidenciais na Colômbia, realizado no domingo (21), com cerca de 250 mil votos de vantagem sobre o senador Iván Cepeda Castro, segundo o resultado preliminar da apuração. A primeira fase da contagem, conhecida como preconteo, indicou a vitória do candidato de extrema-direita, mas o resultado oficial só será proclamado após o escrutínio, processo que pode durar vários dias.
Como funciona a apuração na Colômbia?
Na Colômbia, a apuração eleitoral tem duas etapas. O preconteo é uma contagem preliminar, rápida e provisória, realizada pelos jurados de mesa logo após o fechamento das urnas. Eles contam manualmente as cédulas de papel, preenchem uma ata física e transmitem os dados por telefone para a central eleitoral, que atualiza os resultados em tempo real. Esse processo, porém, tem caráter exclusivamente informativo e não possui valor legal para declarar o vencedor, pois é suscetível a erros de digitação e rasuras.
O escrutínio, por sua vez, é a apuração oficial, definitiva e com validade jurídica. Começa logo após o encerramento do preconteo e pode durar dias. Nessa fase, o processo sai das mãos dos jurados de mesa e passa para comissões escrutinadoras, compostas principalmente por juízes, notários e outros delegados eleitorais. As comissões conferem os formulários físicos originais enviados de cada mesa, e representantes e fiscais de todas as campanhas acompanham a checagem presencialmente. Se houver inconsistência matemática, rasura ou suspeita de fraude na ata, os partidos podem exigir a abertura da urna e a recontagem física dos votos em papel.
O resultado oficial só é consolidado quando o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), em Bogotá, consolida o escrutínio de todo o país e julga todos os recursos e contestações apresentados pelas campanhas. Em disputas acirradas, essa verificação costuma levar cerca de uma semana.
Contexto das eleições colombianas
As eleições presidenciais na Colômbia ocorrem a cada quatro anos em sistema de até dois turnos. Se nenhum candidato alcançar mais de 50% dos votos válidos no primeiro turno (realizado no fim de maio), os dois mais votados disputam o segundo turno três semanas depois, em junho. O voto é totalmente em cédulas de papel depositadas em urnas físicas. O presidente eleito cumpre um mandato único, e a reeleição é proibida pela Constituição.
No primeiro turno de 2026, nove candidatos disputaram a Presidência representando alianças de esquerda, centro e direita. Os dias de votação sempre ocorrem aos domingos, com seções eleitorais abertas das 8h às 16h (horário local). O governo aciona as Forças Armadas para patrulhar os colégios eleitorais e decreta medidas como fechamento temporário das fronteiras terrestres e lei seca.
Disputa entre direita e esquerda
A eleição de 2026 tornou-se uma queda de braço entre o atual presidente colombiano, Gustavo Petro, e o presidente dos EUA, Donald Trump. Cepeda era o candidato apoiado por Petro, enquanto Espriella teve apoio declarado do líder norte-americano. O resultado cimenta a onda de governos de direita na América Latina, juntando-se a Chile (Jorge Kast) e Bolívia (Rodrigo Paz).
O CNE informou que a votação ocorreu de forma tranquila, com observadores internacionais da OEA e da União Europeia. Após polêmica no primeiro turno, Petro afirmou que respeitará o resultado, mas pediu mobilização popular para vigiar as atas eleitorais. Cepeda também disse que respeitará o veredito, mas exigiu supervisão rigorosa da apuração.
Perfil de Abelardo de la Espriella
Espriella, advogado de 47 anos e empresário sem experiência política, apresenta-se como um salvador anti-establishment. Ele venceu o primeiro turno com propostas linha-dura contra o crime organizado, corte de programas governamentais e impostos, e revitalização da exploração de petróleo. É cidadão naturalizado dos EUA, já viveu em Miami e é republicano registrado. Admirador de Trump e do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, promete ofensiva militar e construção de 10 megaprisões.
“No meu governo não haverá processos de paz. Criminosos que não se submeterem serão eliminados, conforme permitido por lei”, afirmou Espriella. O discurso ecoou no eleitorado, que aponta a violência como principal preocupação, à frente da economia. Espriella culpa Petro pelos problemas econômicos e de segurança e prometeu reduzir o tamanho do Estado em 40%, ampliar a base tributária e cortar impostos corporativos.
“A segurança foi a questão central desta campanha, que levou à vitória de De La Espriella no primeiro turno”, disse o analista político Eduardo Pizarro à Reuters. Pizarro afirma que a percepção de insegurança aumentou nas cidades, incluindo extorsão e pequenos delitos, enquanto a expansão de grupos armados em áreas rurais afetou mais civis.
Tensão e risco de contestação
A vitória de Espriella no primeiro turno surpreendeu, pois Cepeda liderava as pesquisas. Petro chegou a contestar o resultado, posteriormente reconhecido por Cepeda. A contestação aumentou as tensões e alimentou temores de que o governo Petro reivindique os resultados em caso de vitória de Espriella. O Tribunal Eleitoral pediu que todas as partes respeitem o resultado, temendo protestos e violência. No ano passado, o candidato de direita Miguel Uribe foi assassinado durante um comício.
Onda de direita na América Latina
A vitória de Espriella confirma a onda de líderes de direita na região, isolando governos de esquerda e redesenhando alianças geopolíticas. O resultado respalda movimentos representados por Bukele, Milei e Kast.



