É enganoso associar crescimento da direita na América Latina a cortes na USAID
É enganoso associar direita na América Latina a cortes na USAID

Uma postagem que circula nas redes sociais afirma que, desde que os fundos da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) foram cortados, a esquerda perdeu praticamente todas as eleições na América Latina. A publicação mostra dois mapas da América do Sul, comparando 2022 (predominantemente vermelho, representando a esquerda) e 2026 (predominantemente azul, representando a direita), com a legenda: "Desde que os fundos da USAID foram cortados, a esquerda perdeu praticamente todas as eleições na América Latina". Comentários sugerem que não há mais recursos para "fraudar as eleições". No entanto, o Estadão Verifica investigou e concluiu que a afirmação é enganosa.

Guinada à direita na América do Sul não tem relação com cortes da USAID

A América do Sul passa por uma guinada à direita, mas isso não tem relação direta com o desmantelamento da USAID pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. No início de 2025, Trump disse que a USAID é "administrada por lunáticos radicais de esquerda" e congelou o trabalho da agência. Os presidentes de esquerda que antecederam os direitistas foram eleitos em pleitos reconhecidos por adversários e organizações internacionais, e não há evidências de fraudes generalizadas.

USAID não financiou projetos eleitorais no Brasil

Em 2025, o Estadão Verifica fez um levantamento dos repasses da USAID a organizações que atuam no Brasil, registrados no site ForeignAssistance.gov. No período fiscal de 2022, mais de US$ 29,2 milhões foram investidos pela agência no Brasil, destinados a projetos de saúde, educação e assistência social — nenhum relacionado a eleições. No ano fiscal de 2023, até setembro, a USAID destinou mais US$ 19,9 milhões a organizações no Brasil, também sem projetos eleitorais. Contratos de 2018 a 2021, ativos até 2022, igualmente não apresentaram projetos ligados ao pleito.

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Vitórias de líderes de esquerda foram reconhecidas por adversários e órgãos internacionais

A publicação apresenta uma lista de sete países (Chile, Bolívia, Peru, Equador, Honduras, Colômbia e Costa Rica) com nomes de políticos de direita que venceram eleições após 2022. O que a postagem omite é que a eleição dos antecessores de esquerda foi reconhecida pelos próprios adversários e por organizações internacionais, sem indícios de fraude.

Chile: José Antonio Kast venceu as eleições presidenciais em dezembro de 2025. O antecessor, Gabriel Boric, foi eleito em 2021 com quase um milhão de votos a mais que Kast, e sua vitória foi reconhecida pelo adversário.

Bolívia: Rodrigo Paz foi eleito em outubro de 2025, encerrando 20 anos de governos de esquerda. O antecessor Luis Arce foi eleito em 2020, e seu principal adversário, Carlos Mesa, afirmou que as projeções eram "muito contundentes e muito claras", reconhecendo o vencedor. A Missão de Observação Eleitoral da OEA classificou o pleito como "bem-sucedido e pacífico".

Peru: Keiko Fujimori alcançou vantagem irreversível nas eleições de 2025. Em 2021, o Peru elegeu o esquerdista Pedro Castillo; Fujimori denunciou irregularidades, mas elas foram rechaçadas pelo Jurado Nacional de Eleições (JNE) do Peru, e a OEA não detectou "irregularidade grave". Fujimori reconheceu o resultado.

Equador: Daniel Noboa foi reeleito em 2025. O antecessor Guillermo Lasso, eleito em 2021, não era de esquerda, mas conservador. A Missão de Peritos Eleitorais da União Europeia declarou o processo transparente e confiável.

Honduras: Nasry Asfura foi eleito em dezembro de 2025. A antecessora Xiomara Castro, eleita em 2021, teve sua vitória reconhecida pela oposição e pela Missão de Peritos Eleitorais da União Europeia.

Colômbia: Abelardo de la Espriella venceu as eleições de 2025. O antecessor Gustavo Petro foi eleito em 2022, primeiro presidente de esquerda da história colombiana, com resultado reconhecido pelo presidente Iván Duque, pelo adversário Rodolfo Hernández e pela OEA.

Costa Rica: Laura Fernández foi eleita em fevereiro de 2025. O antecessor Rodrigo Chaves, eleito em 2022, era conservador, não de esquerda. A OEA classificou o pleito como "bem-sucedido" e reforçou a solidez do sistema eleitoral.

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O autor da postagem foi procurado, mas não retornou. Não há evidências de que a USAID tenha interferido em eleições na América Latina.