O analista político Feliciano Guimarães afirmou, em entrevista exclusiva ao Valor, que as relações entre Brasil e Argentina atravessam o pior momento desde a redemocratização de ambos os países. Segundo ele, o rompimento de diálogos e as divergências em temas centrais do Mercosul criaram um cenário de instabilidade sem precedentes.
Raízes do conflito
Guimarães aponta que as diferenças nos modelos econômicos e nas políticas externas dos dois governos são as principais causas. Enquanto o Brasil adota uma postura mais liberal em acordos comerciais, a Argentina mantém posições protecionistas. Isso gerou atritos em negociações como a do acordo Mercosul-União Europeia, que está paralisada há mais de um ano.
Além disso, declarações recentes de autoridades argentinas criticando a política ambiental brasileira aumentaram a tensão. “A falta de confiança entre os líderes fez com que questões menores se transformassem em crises diplomáticas de grande porte”, disse Guimarães.
Impactos econômicos
A crise tem afetado diretamente o comércio bilateral, que movimenta cerca de US$ 30 bilhões por ano. Dados do Ministério da Economia mostram que as exportações brasileiras para a Argentina caíram 12% no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Setores como o automotivo e o de máquinas agrícolas foram os mais atingidos.
Empresas brasileiras com operações na Argentina relatam dificuldades com barreiras não tarifárias e atrasos em licenças de importação. “A incerteza jurídica e a instabilidade política estão afastando investimentos”, destacou Guimarães, citando relatos de empresários.
Reações oficiais
O Itamaraty emitiu nota em que lamenta as declarações argentinas e reafirma o compromisso com o diálogo. Já o governo argentino, por meio do Ministério das Relações Exteriores, culpa o Brasil por não respeitar compromissos assumidos no âmbito do Mercosul. Em uma reunião virtual realizada na última semana, os chanceleres dos dois países não conseguiram avançar em nenhum ponto da pauta.
Para Feliciano Guimarães, a situação exige mediação de terceiros, como Uruguai ou Paraguai, para retomar as negociações. “O Mercosul corre o risco de se tornar irrelevante se as duas maiores economias do bloco não resolverem suas divergências”, alertou.
Perspectivas futuras
O analista acredita que uma mudança de governo na Argentina, com eleições marcadas para outubro, pode abrir espaço para uma reaproximação. No entanto, ele ressalta que, independentemente do resultado eleitoral, será necessário um esforço conjunto para reconstruir a confiança. “Sem uma agenda positiva e resultados concretos, a crise tende a se aprofundar”, concluiu Guimarães.



