Ascensão da direita na América Latina: causas e desafios
Ascensão da direita na América Latina: causas e desafios

Com a vitória de Keiko Fujimori no Peru e a posse iminente de Abelardo de la Espriella na Colômbia, a América Latina chega a 12 chefes de Estado de direita. Esse número contrasta com o início de 2023, quando havia 11 países governados por esquerdas. Embora Brasil e México, as maiores democracias da região, ainda tenham governos de esquerda, as próximas eleições brasileiras podem mudar esse cenário: o presidente Lula enfrentará o senador de direita Flávio Bolsonaro em outubro.

Segurança pública como motor eleitoral

Um dos principais fatores por trás dessa onda conservadora é a demanda por segurança. A criminalidade disparou em países como Equador, Peru e Chile. Pesquisas de 2024 mostraram que a população chilena está mais preocupada com o crime do que a do México e da Colômbia, que têm taxas de homicídio muito mais altas. Candidatos de direita como Keiko Fujimori (Peru), Abelardo de la Espriella (Colômbia), Daniel Noboa (Equador), José Antonio Kast (Chile) e Nasry Asfura (Honduras) venceram com promessas de "ordem" e "braço forte".

Nayib Bukele, presidente de El Salvador, tornou-se um ícone da direita regional ao reduzir a violência das gangues com um estado de exceção que suspendeu garantias constitucionais, gerando denúncias de abusos. Segundo a professora de relações internacionais Regiane Bressan, da Universidade Federal de São Paulo, "a América Latina tem governos majoritariamente de direita, que estão pegando muito pesado com a segurança pública. Isso porque a violência é fruto de um problema estrutural da região – pobreza e desigualdade – e os governos de esquerda não deram conta de resolver essa problemática totalmente", declarou Bressan à BBC News Brasil.

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O fator Trump e o estilo combativo

Além da ênfase em segurança, a nova direita latino-americana se diferencia dos conservadores tradicionais pelo uso eficaz das redes sociais e pela agressividade verbal contra adversários, especialmente a esquerda e a chamada "cultura woke". Esse estilo combativo ecoa o do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cujo governo buscou se alinhar a líderes de direita na região para neutralizar a influência chinesa. Bressan alerta: "Os Estados Unidos continuarão tensionando a nossa região e acho que vão tensionar as eleições no Brasil. É preciso estar atento a esses governos extremistas, que rompem com a democracia".

Pesquisas do Latinobarómetro indicam que, a partir de 2020, os latino-americanos passaram a se classificar levemente mais à direita. Marta Lagos, diretora do instituto, vincula o fenômeno à pandemia de coronavírus: "A pandemia convenceu as pessoas vulneráveis de que não sairão do buraco. Essa queda de expectativas gera demanda populista e de extrema direita. É como se as pessoas dissessem: 'Chega, é preciso algo muito duro e drástico para que as coisas mudem'". O apoio à economia de mercado na região subiu de 58% (2020) para 66% (2024), explicando o sucesso de propostas de redução do Estado, simbolizadas pela motosserra de Javier Milei na Argentina.

Desafios de gestão e incertezas

Apesar da vitória nas urnas, os presidentes de direita enfrentam desafios. Milesi tenta melhorar a economia argentina, embora já tenha reduzido a inflação com ajuste drástico. O Equador registrou mais de 9,2 mil homicídios em 2025, um dos maiores índices do mundo, mesmo com a militarização ordenada por Noboa. No Chile, a aprovação de Kast caiu devido à estagnação econômica, desemprego de 9,4% (março a maio) e criminalidade persistente. Marta Lagos adverte: "É um erro pensar que a direita veio para ficar. Se não conseguir controlar a segurança, será o equivalente funcional à incapacidade da esquerda de eliminar a pobreza. São promessas não cumpridas, com sinais ideológicos distintos. Quem será eleito depois?"

Nas últimas décadas, os eleitores latino-americanos têm punido os governos no poder: candidatos de oposição venceram cerca do dobro das eleições em relação aos de situação. Assim, a durabilidade da onda conservadora dependerá da capacidade de entregar resultados concretos, especialmente em segurança e economia.

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