Jovens do Morro da Providência fazem intercâmbio para o Benin em busca de ancestralidade
Jovens do Morro da Providência vão ao Benin em intercâmbio

Quatro jovens do Morro da Providência, no Rio de Janeiro, embarcam em agosto para um intercâmbio cultural de oito dias em Ouidah, no Benin, na costa oeste da África. A viagem, promovida pelo Instituto Entre o Céu e a Favela em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), inclui ainda dois dias em Paris, na França. O grupo é formado por Rhyan Valente (16 anos), Ana Julia Everton (15), Maria Eduarda Almeida (11) e Rayssa Costa (16), todos integrantes do Bando Teatro Favela.

Primeiro passaporte e reencontro com as origens

Rhyan Valente será o primeiro da família a obter um passaporte. Para ele, a oportunidade vai além de conhecer outro continente. "Essa viagem que eu vou fazer para a África, junto com o grupo de teatro, vai muito além de conhecer outros continentes. É um reencontro com a minha ancestralidade", diz o adolescente. Nascido na Providência e atualmente morador do Morro do Pinto, ele planeja compartilhar a experiência ao retornar: "Quando a gente voltar, quero contar as histórias para crianças da Providência. Muitos estarão se vendo na gente e vão conseguir entender que são capazes de estar em um outro país".

Escolha do Benin e resgate histórico

Cíntia Santana, fundadora do instituto, explica que a escolha do Benin visa combater o desconhecimento sobre a importância histórica do país. Ouidah abriga um dos principais portos de saída de africanos escravizados durante o período colonial. "Os nossos antepassados vieram de lá. E essa história não é contada. Muitas crianças não sabem que a África é um continente e acabam pensando que lá só tem pobreza", afirma Cíntia. A ideia do intercâmbio surgiu após uma viagem dela à África do Sul em janeiro do ano passado. "Decidi que eu voltaria para a África com as crianças do projeto. No teatro, o trabalho todo é baseado em colocá-las em cena. Você não consegue dar uma aula sobre isso. Eu queria que elas sentissem o que é ir para esse continente", conta.

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Programação intensa em Ouidah

A programação diária dos jovens em Ouidah ocorre das 8h às 20h. Eles visitarão pontos turísticos como a rota percorrida pelos africanos escravizados e a Porta do Não Retorno, um arco de cerca de 15 metros de altura erguido em 1995 com apoio da Unesco, onde os negros pisaram pela última vez no continente. O grupo também irá à Floresta Sagrada, um dos principais centros do vodum no Benin, onde se encontra um iroko que, segundo a tradição local, é a forma que o rei Kpassè assumiu para não morrer diante dos súditos. Haverá ainda atividades com crianças e adolescentes beninenses.

História da Providência compartilhada

Os jovens poderão compartilhar com os beninenses a história do Morro da Providência, que remonta ao fim do século 19, quando negros recém-libertos da escravidão ocuparam o morro. Ana Julia Everton, de 15 anos, que está no projeto desde os 9, conta: "Muitas começaram a viver em cortiços aqui no centro da cidade. Quando esses cortiços começaram a ser demolidos, ocuparam os morros próximos". Ela pretende usar a experiência como referência no teatro: "Eu vou ter a oportunidade de aprender sobre a história, a cultura e as tradições. E essa viagem vai mudar muito a minha carreira como atriz, vai me fazer ter um conhecimento muito mais alto sobre o teatro".

Apoio institucional e equipe pedagógica

O grupo será acompanhado pela equipe pedagógica do projeto. O Instituto Entre o Céu e a Favela está localizado na Ladeira do Faria, 88, no Morro da Providência. A iniciativa "Viva Pequena África" do BNDES financia a viagem, que inclui hospedagem e programação conjunta com a ONG Institut Afrique Décide, do Benin. A expectativa é que a experiência transforme a visão dos jovens sobre suas origens e potencialize seus talentos artísticos.

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