Estudo divulgado nesta quarta-feira (1º) pela Rede de Observatórios da Segurança aponta que 96% das mortes decorrentes de intervenção policial no Amazonas em 2025 tiveram pessoas negras como vítimas. O índice é o maior entre os nove estados monitorados pelo levantamento “Pele Alvo: entre racismo e letalidade”.
Maior proporção de vítimas negras
O Amazonas lidera o ranking de maior percentual de pessoas negras mortas em intervenção policial, seguido por Pernambuco e Bahia. A diferença para São Paulo, último colocado, é de 31,4 pontos percentuais. Em relação a 2024, o estado registrou um aumento de 6% na proporção de vítimas negras.
O estudo toma como base dados das secretarias estaduais de segurança pública obtidos por Lei de Acesso à Informação (LAI). Os pesquisadores adotam o critério do IBGE, que define população negra como a soma de pretos e pardos.
Número de mortes e interiorização
Em 2025, o Amazonas registrou 43 mortes por intervenção policial, mesmo número do ano anterior. Em sete anos de monitoramento, o estado acumula 535 vítimas. O relatório aponta uma mudança geográfica: os municípios do interior concentraram 62,8% das mortes, enquanto Manaus respondeu por 37,2%. As ocorrências se espalharam por 16 municípios, contra 10 no período anterior.
Coari, cidade às margens do Rio Solimões, aparece com a maior concentração de casos, reunindo 16,3% das mortes no estado. O município está localizado em uma das principais rotas do tráfico de drogas na Amazônia.
Perfil das vítimas e responsabilidade
As vítimas eram majoritariamente jovens, e a Polícia Militar foi responsável por 75% das mortes registradas no Amazonas. O estudo destaca que não houve reconhecimento oficial de vítimas indígenas, apesar da relevância da população indígena no estado.
“Esses dados alertam para uma possível tendência de interiorização da violência policial, que extrapola os registros oficiais. A maior parte dos municípios afetados possui menos de 50 mil habitantes, em grande parte organizados em comunidades ribeirinhas, com poucos registros de homicídios”, diz trecho do levantamento.
Possíveis causas e demandas locais
O estudo sugere que a nova dinâmica da letalidade policial pode ser consequência da interiorização de investimentos governamentais em infraestrutura para a segurança pública, justificada pelo “combate às facções”. Enquanto isso, organizações locais reivindicam políticas de prevenção a violências contra mulheres e meninas, além de ações contra pequenos roubos e furtos, como redução do uso abusivo de álcool e outras drogas.



