Aos 57 anos, a brasileira Beatriz Krähenbühl realizou um feito notável: conquistou a certificação internacional para atuar como guia de montanha nos Alpes Suíços. Natural de Santos, no litoral de São Paulo, ela trocou as praias pela imponência das montanhas há três décadas e, após uma formação rigorosa, está apta a conduzir aventureiros por trilhas nos Alpes. Em entrevista ao g1, Beatriz destacou que a jornada foi um dos maiores desafios de sua vida, mas também uma prova de que é possível reinventar-se em qualquer idade.
Uma paixão que virou profissão
O amor de Beatriz pelas montanhas floresceu após a pandemia de Covid-19, quando ela começou a fazer trilhas com amigos suíços e, por vezes, sozinha. O que parecia apenas um hobby ganhou novos contornos quando ela passou a compartilhar suas caminhadas nas redes sociais. Foi então que uma brasileira a contatou, perguntando se Beatriz poderia guiá-la pelas montanhas da região. "Aceitei o convite. Depois veio outra pessoa, depois outra. E, de forma muito espontânea, comecei a conduzir brasileiras pelos Alpes", relembrou Beatriz.
O potencial de Beatriz não passou despercebido. Um guia local a incentivou a buscar a formação oficial de Mountain Leader (Líder de Montanha). Em 2023, ela iniciou um intenso programa de três anos, que combinou estudo teórico, preparação física e habilidades técnicas. A formação, oferecida pela Horizons Nature — instituição certificada pela UIMLA (Union of International Mountain Leader Associations) —, é reconhecida internacionalmente e estabelece padrões rigorosos para a profissão.
Os desafios da certificação
Antes mesmo de ser aceita no curso, Beatriz precisou comprovar vasta experiência em montanha e excelente condicionamento físico. Um dos requisitos mais desafiadores era a capacidade de subir 600 metros de desnível por hora, carregando uma mochila de 8 kg. "A formação de Mountain Leader é uma das mais exigentes que já fiz na vida", afirmou Beatriz. "Entrei nessa formação com mais de 50 anos e, em vários momentos, questionei se conseguiria acompanhar o ritmo. Foi um enorme desafio físico, mental e intelectual. Cada etapa vencida reforçou a certeza de que nunca é tarde para reinventar a própria vida."
O currículo do curso é abrangente e inclui nove módulos distribuídos ao longo de dois anos, totalizando cerca de três anos até a conclusão. As áreas de estudo são diversas: gestão de riscos e segurança em montanha, orientação e navegação, meteorologia, nivologia e prevenção de avalanches, primeiros socorros em áreas remotas, condução e gestão de grupos, geologia, glaciologia, hidrologia, geomorfologia, fauna, flora, botânica, além de história, cultura e economia das regiões montanhosas. As provas práticas ocorrem tanto no inverno quanto no verão, testando a adaptação da guia a diferentes condições climáticas.
Certificação internacional e futuro promissor
Atualmente, Beatriz é guia aspirante certificada pela escola. Em novembro, ela enfrentará um exame escrito para obter o brevet federal, que a habilitará a trabalhar em todos os países membros da UIMLA, além da Suíça. "O que mais me encanta nos Alpes Suíços é que eles estão em constante transformação. Posso percorrer a mesma trilha centenas de vezes e nunca viver a mesma caminhada. A montanha muda a cada estação, a cada mudança de luz, de temperatura e de clima", destacou Beatriz.
A trajetória de Beatriz é marcada por mudanças ousadas. Formada em Biologia Marinha, ela trabalhou como comissária de bordo antes de se mudar para a Suíça em 1996, após conhecer o marido Fred, também natural da Baixada Santista. A princípio, o plano era viver no país europeu por apenas um ou dois anos. "Imaginava que seria uma experiência de um ou dois anos. Pensava que depois seguiríamos para algum lugar perto do mar porque nunca imaginei que viveria longe do oceano", confessou.
Uma nova vida nos Alpes
O destino, no entanto, reservou a Beatriz uma profunda conexão com as montanhas. Ela aprendeu o idioma, fez amigos e trabalhou em diversas áreas, incluindo hotéis, restaurantes, no Centro Esportivo de Verbier e na Téléverbier, empresa de teleféricos onde controlava passes de esqui. "Nessa época passei a conhecer Verbier de verdade. Não como turista, mas vivendo a região em todas as estações, entendendo seu funcionamento, sua cultura e as pessoas que fazem parte dela", disse Beatriz. Em 2000, após o nascimento do filho Yannick, ela começou a trabalhar em uma creche, o que se tornou uma carreira de mais de duas décadas na área da educação.
Em 2023, Beatriz decidiu encerrar essa fase para se dedicar integralmente à nova profissão de guia de montanha. "Foi uma decisão importante, mas que fez todo sentido, porque unia tudo aquilo que sempre esteve presente na minha vida: a natureza, o prazer de caminhar e a alegria de compartilhar experiências com as pessoas", finalizou Beatriz. Sua história inspira não apenas os amantes da natureza, mas todos aqueles que buscam coragem para recomeçar, independentemente da idade.



