“Brasil tem 55 dos 66 tons de pele que há no mundo”, afirmou Ezgi Barcenas, diretora global de responsabilidade corporativa da L’Oréal, durante evento em que a empresa apresentou suas iniciativas de diversidade e inclusão. A declaração coloca o país em uma posição única no cenário global e reafirma a importância de a indústria da beleza enxergar a pluralidade como prioridade.
Barcenas está à frente das estratégias de responsabilidade corporativa da gigante francesa, que é uma das maiores companhias de cosméticos do mundo. Em seu trabalho, ela acompanha desde políticas internas de equidade até projetos externos de impacto social e ambiental.
Um país com 83% da diversidade de tons de pele do mundo
Os números citados pela executiva fazem parte de uma pesquisa científica conduzida pela L’Oréal para catalogar a variação de tons de pele na população mundial. O levantamento identificou 66 tonalidades diferentes — e o Brasil, sozinho, responde por 55 delas. Isso equivale a 83,3% de toda a diversidade mapeada, um índice extraordinário para um único país.
Essa concentração é resultado direto do processo histórico de formação do povo brasileiro. A mistura de populações nativas, africanas e europeias, somada a ondas migratórias posteriores, gerou um mosaico genético e cultural sem paralelos. Em nenhum outro lugar do planeta há tamanha variedade de cores de pele em um mesmo território.
A fala de Barcenas, nesse sentido, não é apenas uma estatística: é o reconhecimento de que o Brasil é, na prática, um espelho da humanidade. Para a L’Oréal, esse dado reforça a necessidade de investir em pesquisas locais e desenvolver produtos específicos para o mercado brasileiro.
A ciência dos subtons
Por trás do mapeamento de tons de pele há uma complexa investigação científica. Além da cor visível, os especialistas analisam os subtons — variações quentes, frias ou neutras que influenciam diretamente na escolha de bases e corretivos. Um mesmo tom de pele pode ter subtons diferentes, o que multiplica as combinações possíveis.
A L’Oréal utiliza essa matriz para criar fórmulas que se adaptem às necessidades de cada pessoa. O desenvolvimento de produtos no setor de beleza, especialmente maquiagem, depende de dados precisos sobre a diversidade humana. Sem esse tipo de estudo, marcas correm o risco de lançar linhas limitadas que excluem boa parte da população.
O método da empresa também leva em conta fatores como textura, oleosidade e sensibilidade, que variam conforme o tom e o subtom da pele. Tudo isso é considerado para que um produto funcione bem em diferentes realidades — e o Brasil, com sua variedade, serve como um dos principais laboratórios naturais da marca.
Inclusão como estratégia de negócio
A declaração de Ezgi Barcenas chega em um momento em que o mercado de beleza passa por uma transformação profunda. Durante décadas, a indústria priorizou padrões estéticos restritos, com pouca oferta para peles negras e outras minorias. Esse cenário começou a mudar com a pressão dos consumidores e o amadurecimento das próprias empresas.
Para a L’Oréal, a diversidade deixou de ser um discurso e se tornou um pilar de inovação. A empresa investe em maquinário e tecnologia para ampliar a gama de tonalidades de seus produtos, além de promover campanhas com representatividade étnica e racial. A presença de Barcenas no comando dessas ações indica o peso que o tema ganhou na hierarquia da companhia.
No Brasil, a cobrança por inclusão é ainda maior, considerando a composição da população. Estar diante de um país que reúne 83% dos tons de pele do mundo é um convite para que as marcas pensem em estratégias locais, com diversidade de elenco, comunicação e produtos.
Um chamado para a indústria
A fala da executiva da L’Oréal pode ser lida como um chamado para toda a cadeia de beleza. Reconhecer a diversidade brasileira é o primeiro passo para criar um mercado mais justo e competitivo. Empresas que insistirem em portfólios limitados tendem a perder relevância em um país onde a maioria da população se identifica como preta ou parda.
Além do aspecto comercial, há uma dimensão social importante. Quando uma marca declara publicamente que o Brasil tem 55 dos 66 tons de pele do mundo, ela ajuda a valorizar a identidade nacional e combater padrões excludentes. A mensagem de Ezgi Barcenas, portanto, ultrapassa o discurso corporativo e encontra eco em um público cada vez mais atento à pluralidade.
O desafio, agora, é transformar a estatística em prática. Mapear tons de pele é apenas o começo; é preciso garantir que os produtos estejam disponíveis, que as campanhas reflitam a sociedade e que as oportunidades dentro das empresas sejam igualmente diversas. A L’Oréal, ao ter uma executiva global falando sobre o tema, demonstra que está disposta a liderar esse movimento — e o Brasil, com seus 55 tons, é o terreno perfeito para que isso aconteça.



