Mineiro de Alvarenga é o braço direito de Enzo Fernández no Chelsea
Mineiro é braço direito de Enzo Fernández no Chelsea

Enquanto milhões de torcedores acompanham a expectativa pela semifinal entre Argentina e Inglaterra na Copa do Mundo nesta quarta-feira, 15, um mineiro do interior vive essa história por um ângulo privilegiado. Natural de Alvarenga, no Vale do Rio Doce, Danilo Riani divide a rotina com um dos principais nomes da seleção argentina: Enzo Fernández, autor do gol da virada histórica contra o Egito.

Aos 42 anos, o profissional de Educação Física formado em Caratinga é hoje assistente pessoal do meio-campista do Chelsea. Mais do que organizar a rotina fora de campo do campeão do mundo, tornou-se um dos homens de confiança do argentino.

Trajetória de persistência até o Chelsea

A trajetória até chegar a um dos maiores clubes do mundo, porém, passou longe de ser simples. Antes de trabalhar no Chelsea, Danilo atuou no Boston City, onde foi o primeiro diretor de futebol da unidade de Manhuaçu, além de integrar o Villa Nova, de Nova Lima. Em 2022, decidiu buscar uma oportunidade na Inglaterra. Recebeu três respostas negativas antes de finalmente conquistar uma vaga.

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“Eu bati na porta do Chelsea três vezes e não consegui. Na quarta tentativa, deu certo. Acho que a persistência foi o que me trouxe até aqui”, conta Danilo.

Inicialmente, Danilo passou a integrar o departamento responsável por fazer a ponte entre a nutrição, os atletas e o refeitório do clube, garantindo que cada jogador recebesse a alimentação adequada para seu planejamento físico. O domínio do português, inglês, espanhol e italiano acabou se tornando um diferencial. Além de facilitar a comunicação com atletas recém-chegados à Inglaterra, o mineiro também passou a ajudá-los em questões do dia a dia.

De funcionário a homem de confiança de Enzo

Foi justamente dessa convivência diária que nasceu uma amizade com Enzo Fernández. Quando o argentino desembarcou em Londres, ainda falava pouco inglês. Danilo, que também não dominava o espanhol na época, começou a estudar o idioma para facilitar a comunicação. A proximidade cresceu naturalmente.

“Eles sempre elogiaram meu jeito de tratar as pessoas. O velho jeito mineirinho de ser. Sempre procurei ser educado, respeitoso e ajudar em tudo que precisava, dentro e fora do clube”, afirma Danilo.

A amizade acabou ultrapassando o ambiente de trabalho. A confiança foi tanta que, em 2024, antes das férias do elenco, Enzo fez um convite inesperado: “Ele me abraçou e disse: ‘Quando você voltar, vai trabalhar para mim. Eu preciso que você organize minha vida fora do futebol’.”

Desde então, Danilo passou a atuar diretamente com o argentino, cuidando da logística, alimentação, organização da rotina e de tudo que envolve a vida pessoal do jogador para que ele possa focar exclusivamente no desempenho dentro de campo. O mineiro passou a auxiliá-lo não apenas nas questões ligadas ao clube, mas também em necessidades cotidianas, como encontrar moradia, resolver burocracias e compreender a cultura local.

“Hoje posso dizer que, além de ser meu patrão, ele é um grande amigo”, conclui Danilo.

A seleção argentina começa antes da convocação

Mesmo durante as férias, Danilo mantém contato constante com Enzo e outros jogadores do Chelsea que disputam a Copa do Mundo 2026, como Marc Cucurella, Malo Gusto, Reece James, Trevoh Chalobah e o ex-Chelsea, hoje no Fenerbahçe, N'Golo Kanté. Antes dos grandes jogos, costuma enviar mensagens desejando boa sorte.

Segundo Danilo, o clima de Copa começa muito antes da apresentação oficial: “O Enzo entra no clima da seleção cerca de quinze dias antes de se apresentar. Eles vivem isso intensamente. Amam defender a Argentina.”

O mineiro percebe uma diferença cultural em relação a outras seleções: “Os argentinos têm um patriotismo muito forte. Eles respeitam muito a camisa da seleção. Os espanhóis também vivem isso. É algo que chama muita atenção.”

Jogos apertados aumentam concentração

A classificação à semifinal, no entanto, esteve longe de ser tranquila. A Argentina precisou superar jogos equilibrados contra Cabo Verde, Egito e Suíça. “Aquilo mexeu com eles. Eles já são muito focados, mas depois desses jogos a concentração aumentou ainda mais. O Enzo vive a seleção de uma forma muito intensa”, relata Danilo.

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Mesmo acompanhando tudo à distância, durante as férias, o mineiro manteve contato com o camisa 8 e aproveitou para descontrair antes do confronto decisivo. Em uma troca de mensagens, brincou: “Da próxima vez, avisa para eu tomar um remédio, porque meu coração não aguenta, hein? Que emoção!” Enzo respondeu em tom descontraído: “Hahaha, que loucura, mano. Vamos, mano!”, mostrando que, mesmo às vésperas de mais um jogo decisivo, ainda havia espaço para a resenha entre os dois.

Sonho realizado

Ao longo da trajetória na Inglaterra, Danilo também conviveu com nomes como Thiago Silva, hoje de volta ao Fluminense; Andrey Santos, recentemente anunciado pelo Manchester United; Estêvão, João Pedro e um dos grandes ídolos da infância, Frank Lampard.

Com o tempo, a convivência diária fez com que os grandes nomes do futebol deixassem de parecer inalcançáveis: “No começo era tudo muito diferente. Hoje virou rotina. Você entra no vestiário, conversa normalmente, dirige levando os jogadores para casa. Parece estranho falar isso, mas acaba ficando natural.”

Danilo colecionou encontros memoráveis: viu de perto Lionel Messi e Cristiano Ronaldo em campo e cruzou diversas vezes com Pep Guardiola em clássicos do futebol inglês. “Quando vi o Zidane pela primeira vez foi algo fora do normal. Ver o Messi jogar, o Cristiano Ronaldo... Mas depois isso virou parte do dia a dia. Na última partida contra o Manchester City, por exemplo, encontrei o Guardiola, cumprimentei e seguimos conversando normalmente. É uma realidade que só quem vive consegue entender.”

Rivalidade Argentina x Inglaterra

Às vésperas da semifinal, Danilo diz que o confronto entre Argentina e Inglaterra não é tratado, pelos argentinos, como a maior rivalidade esportiva. “O argentino quer ganhar de qualquer um. É vencer, vencer e vencer. Eles gostam muito de jogar contra o Brasil e, hoje, acho que a França é a grande rival no futebol. A Inglaterra eles enxergam mais como um inimigo histórico do que propriamente um rival esportivo.”

Do lado inglês, a percepção é diferente. Acostumado a conviver com jogadores como Reece James e Trevoh Chalobah, Danilo disse que eles encaram o duelo com naturalidade: “O inglês é muito profissional. Ele quer entrar em campo, jogar o futebol dele e vencer. Se perder, vai para casa tranquilo. Não alimenta essa rivalidade como os argentinos fazem. É uma característica que eu admiro muito neles.”

Mesmo tendo construído amizades com atletas dos dois lados e trabalhando há anos no Chelsea, na hora de escolher para quem torcer não há dúvida: “Mas minha torcida é pela Argentina, principalmente pelo Enzo, e seja o que Deus quiser.”