Larissa Luz: 'Gilberto Gil sempre esteve no rock'
Larissa Luz: 'Gilberto Gil sempre esteve no rock'

Larissa Luz, cantora e autora do espetáculo "Rock in Gil", afirma que a obra de Gilberto Gil sempre esteve imbuída do espírito do rock, mesmo quando não era rotulada como tal. Em entrevista ao g1, ela explica que o projeto não tenta transformar Gil em roqueiro, mas sim ampliar o volume de uma característica já presente.

O rock como postura, não apenas gênero

Para Larissa, o rock vai além das guitarras e festivais. "Antes de ser gênero musical, o rock representa uma postura diante do mundo. Uma inquietação, um questionamento, uma liberdade, uma ruptura. E Gil sempre carregou isso", afirma. O espetáculo revisita músicas como "Pessoa Nefasta", "Punk da Periferia", "Rock do Segurança" e uma versão de "Realce" que ganha guitarras sem perder o balanço dançante. Segundo ela, "a rebeldia também pode dançar, pode ter balanço, pode nascer do tambor".

Releituras que dialogam com ritmos brasileiros

A releitura de "Realce" sintetiza a proposta: mostrar que o rock pode dialogar com diferentes ritmos sem perder sua essência. O espetáculo já passou por Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Recife e Porto Alegre. Larissa destaca que, ao revisitar o repertório, percebeu ainda mais a ousadia de Gil. "Eu descobri o quanto ela é radical. Às vezes, a delicadeza faz a gente esquecer o tanto de ousadia que existe ali", diz.

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Gilberto Gil: um artista à frente de seu tempo

Para a cantora, Gil sempre rompeu fronteiras musicais muito antes de isso ser valorizado. "Ele sempre esteve propondo encontros improváveis, quebrando hierarquias musicais, misturando referências que pareciam distantes", afirma. Ela defende que essa coragem extrapola a música, unindo tradição e experimentação, popular e sofisticado, política e poesia.

A contribuição negra para o rock

Larissa acredita que a dificuldade de reconhecer Gil como artista de rock está ligada à história do gênero no Brasil, que "foi contada como uma história muito branca". Revisitar a obra de Gil ajuda a ampliar essa narrativa, evidenciando "a contribuição negra fundamental para o rock, tanto no mundo quanto no Brasil". Segundo ela, entender essa origem muda a forma de ouvir Gil: "O quanto o público entende hoje que o rock é negro dialoga diretamente com o quanto ele consegue enxergar a dimensão rock que existe na obra de Gil".

De 'Rock in Gil' a 'Desmonte'

O espetáculo influenciou diretamente "Desmonte", álbum lançado por Larissa em maio de 2025. No disco, o rock ocupa lugar central, mas dialoga com samba-reggae, tambores afro-baianos, rap e outras sonoridades. Ela diz que os dois projetos nasceram da mesma inquietação: "A música brasileira é mais potente quando não aceita fronteiras. E o rock é absolutamente negro".

Muito além das guitarras

Para Larissa, quem sair do espetáculo discutindo apenas timbres de guitarra pode perder o principal. "O projeto fala sobre uma maneira de existir artisticamente. Sobre não aceitar limites impostos pelo mercado, rótulos ou expectativas". "Rock in Gil" não tenta convencer que Gil fez discos de rock, mas sim lembrar que sua liberdade é uma das expressões mais autênticas do espírito do rock.

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