Início do julgamento do acusado de matar enfermeira com 34 facadas
Começa nesta segunda-feira (13) o julgamento de Matheus Anthony Lima Martins Queiroz, técnico em gestão ambiental de 26 anos, réu no processo da morte da enfermeira Clarissa Costa Gomes, de 31 anos. O crime ocorreu em julho de 2025, no bairro Jardim Cearense, em Fortaleza. Matheus será julgado pelo júri popular por feminicídio majorado pelo uso de meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa da vítima, conforme denúncia do Ministério Público do Ceará (MPCE).
Detalhes do crime e mensagem de SOS
Clarissa foi morta na casa onde morava com a mãe, no dia 9 de julho de 2025. Por volta das 13h30, ela e Matheus chegaram à residência, onde estavam sozinhos. Às 14h, ela participou de uma reunião online de trabalho. Ao fim do encontro, por volta das 15h, enviou uma mensagem de 'SOS' para uma amiga que também participou da reunião. A amiga, em depoimento, disse que acreditou que a mensagem se referia a uma reunião online de trabalho que as duas tiveram pouco antes do crime. Durante a reunião, Clarissa não ligou a câmera nem o áudio, comunicando-se apenas por escrito.
Por volta de 15h20, vizinhos começaram a ouvir gritos de pedido de socorro e pancadas, que, conforme o MP, foram do agressor batendo a cabeça da vítima contra superfícies. Matheus utilizou uma faca da casa de Clarissa para matá-la, acertando-a 34 vezes. Depois, tomou banho, trocou de roupa e deixou a residência por volta de 15h30, levando a chave do portão interno. Vizinhos viram Matheus sair e deixar o portão da rua aberto, mas o portão interno estava trancado. Eles foram até o local e chamaram Clarissa, que não respondeu. Um irmão de Matheus chegou com a chave que o suspeito havia levado. Ao entrar, as testemunhas encontraram sangue em vários cômodos e acionaram o Samu e a Polícia. A morte foi constatada no local. Matheus foi preso na noite do crime, na saída do condomínio da mãe.
Motivação e relacionamento
A suspeita de familiares, amigos e do MP é que, no dia do crime, Clarissa tenha tentado terminar o namoro, o que não foi aceito por Matheus. "O conjunto probatório aponta no sentido de que no dia dos fatos, Clarissa veio a manifestar a vontade de pôr fim ao relacionamento, ao que o réu, inconformado, passou a agredir fisicamente a vítima, bem como surpreendeu Clarissa, se apossou de uma faca que a mãe da vítima guardava em uma geladeira, desferindo diversos golpes contra a vítima", diz trecho da denúncia do MP. O MP pediu que Matheus fosse julgado por feminicídio qualificado, com aumento de pena por motivo torpe (não aceitar o término), uso de meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima. Em depoimento à Polícia Civil, Matheus primeiro afirmou que não encontrou Clarissa no dia do crime; depois, disse não ter lembranças do ocorrido. Ele está preso preventivamente desde então.
Acusado e vítima se conheceram na igreja e estavam juntos desde outubro de 2023. Conforme amigos, Matheus foi o primeiro namorado de Clarissa. Nos últimos meses antes do crime, a enfermeira pensava em terminar o relacionamento. Amigas relataram que Clarissa falava pouco sobre o namoro, mas mencionava desgaste, especialmente devido à ociosidade e grosseria do companheiro. Matheus tem formação como técnico em gestão ambiental pelo IFCE, mas não trabalhava na área. Foi demitido de um emprego em hospital particular, arranjado por Clarissa, por grosseria com clientes. Também atuou como motorista de aplicativo, mas vendeu a moto. Clarissa chegou a preparar um currículo para ele, que conseguiu emprego em uma empresa de energia solar, mas faltava repetidamente. Foi demitido após ser preso. "Ele vive faltando esse emprego dele de experiência, tipo agora faz três dias seguidos que ele falta o trabalho. Não fala comigo mas eu tenho que ficar buscando ele [de carro], aí eu fico brigando, me desgastando", disse Clarissa em conversa com uma amiga. Ela também relatou episódios de ciúmes e tornou privado seu perfil em redes sociais para evitar discussões. Em junho de 2025, Clarissa disse a uma amiga que pensava em terminar o namoro. Foi morta no mês seguinte.
Perfil da vítima e reação de colegas
Formada em Enfermagem pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Clarissa tinha 31 anos e trabalhava como enfermeira em dois grandes hospitais públicos de Fortaleza: o Hospital Geral de Fortaleza (HGF) e o Hospital Dr. César Cals. Era especializada em neonatologia e, conforme amigos, estava prestes a iniciar novo trabalho no Hospital Universitário do Ceará (HUC) e na Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (MEAC). "Ela sempre foi estudiosa, correta e muito pacata. Moça inteligente, simpática e amável", disse um amigo ao g1. Uma colega do Hospital César Cals relatou que o crime deixou a equipe em choque: "Ela era uma pessoa tranquila, acolhedora, de convivência muito leve. Profissional dedicada, comprometida, inteligente e competente. [Ela era] Reservada, jamais imaginávamos que algo do tipo poderia acontecer ou estar acontecendo com ela".



