A camisa 10 do Guarani tem dono e uma história rara. Aos 36 anos, o meia João Paulo sabe que veste um número que consagrou nomes como Zenon, Neto e Djalminha. Mas antes de se firmar como profissional, ele quase abandonou o futebol para ajudar a mãe em uma feira livre. Hoje, com três gols na Série C, ele é uma das principais referências do elenco no Brinco de Ouro.
Peso da camisa e pressão
Em entrevista exclusiva ao Globo Esporte, João Paulo falou sobre a responsabilidade de vestir a camisa 10. "A gente já vem com essas histórias lá do passado, que o camisa 10 é a referência, principalmente por causa do Pelé, que é o nosso rei. Tem o peso, mas a gente tá adaptado a essa pressão pra poder sempre fazer o nosso melhor", disse.
O respeito pela história do Guarani também passa pelos ídolos que ele enfrentou ou viu de perto. "Eu cheguei a jogar contra o Fumagalli, em 2016. Ele é um dos ídolos que usou a camisa 10 e representou a instituição. Fico feliz por também usar uma camisa 10 que é pesada", completou.
Da feira para o futebol
Antes de brilhar nos gramados, João Paulo precisou abrir mão do sonho para ajudar em casa. Quando criança, ele acordava cedo para ir à feira com a mãe e as irmãs. Com o tempo, arrumou um emprego de viagens e passou a trabalhar como uma espécie de gerente, cuidando do transporte de frutas e verduras da Paraíba para o Rio Grande do Norte.
"Eu saía da Paraíba pro Rio Grande do Norte. A gente ficava uns quatro dias, ia pegar na Ceasa as frutas, as verduras. Eu era meio que o gerente, cuidava de tudo", relembra. Por causa do trabalho, ele não passou pelas categorias de base tradicionais. Quando sobrava tempo, jogava no "terrão", como ele mesmo brinca.
"Eu até brinco com alguns amigos: minha base foi jogando no terrão lá na Paraíba. Geralmente, o campo é ruim. E aí, na adaptação pro profissional, eu tive um pouco de dificuldade. Mas tive pessoas que já jogavam e vieram conversar comigo", disse.
Virada aos 21 anos
A virada de chave veio aos 21 anos, quando João Paulo decidiu largar o emprego para fazer um teste na Desportiva Guarabira, clube da sua cidade natal. A aprovação foi confirmada de forma inusitada: a irmã dele ouviu o nome dele no rádio.
"Minha irmã estava escutando a rádio em casa e aí falaram o meu nome. Ela não entendeu nada, ligou pra minha mãe, que me perguntou o que estava acontecendo. Eu disse: 'Não sei' (risos). Aí me ligaram e disseram que a gente ia pra uma cidade vizinha fazer a pré-temporada e eu faria parte do elenco", contou.
E a estreia não poderia ter sido melhor. "Deus me presenteou com um gol. A gente empatou e foi meu primeiro gol como profissional, em 2011", afirmou. A partir daí, ele construiu uma carreira sólida, com passagens por Cruzeiro, Ponte Preta e Avaí, entre outros.
Realização no Maracanã
O sonho de jogar no principal palco do futebol brasileiro também se tornou realidade. "Eu tinha o sonho de jogar no Maracanã. Eu joguei e Deus ainda me coroou com um gol. Foi pelo Avaí, contra o Fluminense, em 2019, na Série A", celebrou.
Momento atual e busca pelo acesso
Agora, de volta ao Guarani após um período no departamento médico, João Paulo vive boa fase. Na atual edição da Série C, ele marcou três gols e deu uma assistência importante na vitória recente sobre a Inter de Limeira. Com a bagagem de quem venceu na vida, ele mantém os pés no chão.
"Pezinho no chão, humildade. A gente ainda não ganhou nada, mas vamos procurar no dia a dia melhorar, a gente tem margem pra isso. Pra no final da competição a gente coroar com o acesso", projetou.



