Em 2006 e 2015, o Ceará chegou à virada do turno da Série B mergulhado na zona de rebaixamento. As angústias, a pressão por resultados e até o tom da cobertura da imprensa lembram, de forma impressionante, o cenário vivido pelo clube em 2026. O ge mergulhou nos arquivos do Diário do Nordeste, jornal do Sistema Verdes Mares, e encontrou registros que mostram como o presente parece caminhar lado a lado com o passado.
A crise de 2006
Na edição de 22 de agosto de 2006, a capa do jornal destacava o pré-jogo do Ceará pela 19ª rodada da Série B. Como ironia do destino, a manchete poderia facilmente ilustrar o momento vivido pelo Alvinegro duas décadas depois. Assim como Daniel Paulista em 2026, Dimas Filgueiras apostava em um "ataque novo" para tentar mudar o rumo da equipe, que enfrentaria o Ituano. A crise já era uma realidade. O Ceará precisava deixar o Z-4, e o desespero começava a tomar conta do ambiente.
Na reportagem, ficava claro qual era a missão de Dimas Filgueiras: tirar o clube da zona de rebaixamento. "A ordem que tenho é ir tentando ganhar as partidas. Logicamente, se isso acontecer, eu vou continuando", disse Dimas, ciente do desafio que iria enfrentar. Antes de enfrentar o Ituano, o Ceará não vencia desde 26 de maio. Eram quase três meses de jejum e dez partidas sem conquistar uma vitória. A sequência não é idêntica à de 2026, mas a dificuldade para voltar a vencer também marcava aquele momento da história alvinegra.
A prece de Tom Barros
Em sua coluna, Tom Barros, um dos maiores nomes do jornalismo esportivo cearense, traduziu o sentimento da torcida. Sem esconder a gravidade da situação, recorreu a uma referência bíblica ao falar sobre o trabalho de Dimas Filgueiras. "Que Jesus olhe para ele nesta missão difícil de reerguer o Ceará", escreveu Tom. A frase simbolizava o tamanho da missão que o treinador tinha pela frente.
Outra coincidência: Tom Barros cita o "preparo físico", tópico também explorado por Daniel Paulista após a derrota para o CRB na 19ª rodada da Série B de 2026. "Isso é um problema que a gente tem, porque nós estamos no final de julho e, infelizmente, o aspecto físico do coletivo, de maneira geral, não só dos que chegaram de outras equipes, precisa melhorar. Hoje ficou evidente que, depois dos 30 minutos do segundo tempo, houve uma queda significativa no nosso aspecto técnico e, principalmente, físico, quando a equipe sentiu demais o jogo. Isso não pode acontecer", disse Daniel Paulista.
O jogo contra o Ituano
Naquela noite de 2006, o Ceará empatou por 2 a 2 com o Ituano, com gols de Arlindo Maracanã e Clodoaldo. O resultado, porém, pouco ajudou. Ao fim do primeiro turno, o Alvinegro ocupava a 20ª colocação, com apenas 15 pontos. No dia seguinte, o Diário do Nordeste estampava mais uma manchete pessimista. A reportagem classificava o resultado como "mais uma decepção" e alertava que o Ceará poderia assumir a lanterna da Série B. A previsão se confirmou.
A cobertura destacava que a "agonia continua" — expressão que também poderia resumir o fim do primeiro turno do Ceará em 2026. Nem mesmo a vantagem numérica diante do Ituano foi suficiente. O Vovô chegou a abrir 2 a 0, mas permitiu o empate. Enquanto isso, os bastidores já apontavam para uma possível mudança no comando técnico. Lula Pereira era o nome mais cotado para assumir a equipe.
O cenário de 2015
Nove anos depois, o roteiro voltou a se repetir. Na virada do turno da Série B de 2015, o Ceará novamente ocupava a zona de rebaixamento. A diferença era que, desta vez, o resultado da 19ª rodada trouxe um pouco mais de esperança. Em 16 de agosto, a capa do Diário do Nordeste destacava a vitória por 2 a 1 sobre o Macaé. Mesmo com os três pontos, o Vovô permaneceu na lanterna da competição, ainda oito pontos atrás do primeiro time fora do Z-4.
Após a partida, o foco era recuperar os jogadores entregues ao departamento médico para enfrentar o São Paulo pelas oitavas de final da Copa do Brasil. Ainda assim, havia uma prioridade absoluta: reagir na Série B e escapar do rebaixamento. Entre os atletas aguardados estavam dois titulares: Ricardinho, hoje assessor de futebol do clube, e Fernandinho, que tratava um desconforto muscular na coxa.
Fora das quatro linhas
Outra curiosidade daquela edição do jornal era um apelo bem-humorado feito por Tom Cavalcante, torcedor declarado do Ceará. Onze anos depois, a ligação do humorista com o clube permanece intacta. Coincidentemente, na 19ª rodada da Série B de 2026 — justamente a virada do turno — Tom Cavalcante estava no Estádio Presidente Vargas acompanhando o empate entre Ceará e CRB.
Coincidências que alimentam a esperança
Os capítulos de 2006 e 2015 terminaram da mesma forma: com o Ceará escapando do rebaixamento. As coincidências vão além. Nas duas temporadas, o Vovô encerrou a Série B exatamente na 15ª colocação, com os mesmos 45 pontos. Em 2006, terminou apenas um ponto acima da zona de rebaixamento. Em 2015, a margem foi de dois pontos. A história mostra que o Ceará já conseguiu transformar cenários tão difíceis quanto o atual em finais felizes. Resta saber se 2026 reservará um desfecho semelhante.



