Uma engrenagem elementar na dinâmica do mercado dos automóveis são as versões. Há desde as mais contundentes, que de fato separam duas personalidades de um mesmo carro – como as esportivas ou as 4x4 –, até as meramente estéticas e temáticas, como aquelas que homenageiam a Copa do Mundo. Elas existem no Brasil desde 1982, e todas as 11 edições seguintes do principal torneio de futebol do mundo produziram a sua.
Linha do tempo das edições Copa do Mundo
- Espanha (1982): Volkswagen Gol Copa
- México (1986): Volkswagen Gol SR
- Itália (1990): Chevrolet Kadett Turim
- Estados Unidos (1994): Volkswagen Gol Copa “2” e Chevrolet Monza Club
- França (1998): Chevrolet Corsa, Corsa Pick-Up e S10 Champ
- Coréia do Sul / Japão (2002): Volkswagen Gol Sport
- Alemanha (2006): Volkswagen Gol Copa “3”
- África do Sul (2010): Volkswagen Gol Seleção
- Brasil (2014): Volkswagen Gol, Fox e Voyage Seleção; Hyundai HB20 Copa do Mundo e Fiat Uno Rua
- Rússia (2018): Hyundai HB20 Copa do Mundo “2”
- Catar (2022): Hyundai HB20 Copa do Mundo “3”
- Canadá, Estados Unidos e México (2026): Volkswagen T-Cross Seleção
E a cada quatro anos, surge a dúvida: esses carros são (ou serão) colecionáveis?
Quem coleciona carros da Copa
Para o colecionador Alexandre Arruda, a resposta é “sim, com certeza”. À frente da Garage Brazil – um acervo com mais de 200 carros fora-de-série (que não tiveram produção em massa) – o advogado foi buscar as versões consideradas mais raras entre os Volkswagen: Copa de 1982, SR (criada pela Souza Ramos) e Copa de 2006. “Todos são muito difíceis de encontrar. Apesar de serem edições especiais, pouca gente pensou em colecioná-las. Os mais novos são ainda mais difíceis, porque ainda são carros ‘usados’, e não antigos”, revela o colecionador. Apesar disso, ele também se aventurou atrás de um Gol Atlanta, aquele em homenagem às Olimpíadas de 1996.
Coleção valiosa
Complicados de achar, os carros em versão de Copa do Mundo também exigem atenção com seus apetrechos estéticos específicos, como aprendeu Fausto Zanetti com seu Gol Copa 1994. Parado há cerca de seis anos, seu novo bibelô precisava de um trato. O problema é que a conta ficou alta. “Achei os faróis auxiliares superiores, precisando de restauração, por R$ 1.200. Os faróis principais, também precisando de reforma, por mais R$ 1 mil. Naquele momento, preferi deixar como está. No futuro, volto a procurar”, lamenta o supervisor comercial. “Outro item difícil de encontrar e muito caro são as calotas. Encontrei por R$ 550 cada uma”, relembra.
Mercado de carros antigos é estável
Os comerciantes se dividem. “Esse é um mercado estável, que não aquece nos anos de Copa. Mas, quando carros impecáveis aparecem com baixíssima quilometragem, são vendidos na hora”, conta André Brunelli, da Brunelli Veículos Antigos, que há pouco tempo vendeu um Gol Copa 1982 com 5 mil quilômetros por R$ 150 mil.
“Percebo que a proximidade de uma Copa do Mundo costuma despertar mais interesse por esses carros. Não é uma explosão de procura, mas o assunto volta à mídia, surgem reportagens, as pessoas relembram as conquistas da Seleção e muitos passam a procurar aquele carro que marcou a juventude ou que sempre tiveram vontade de ter”, complementa João Siciliano, da Siciliano Company.
“Se eu tivesse que indicar um modelo para quem quer entrar nesse nicho, eu apostaria no Volkswagen Gol Copa 1982. Foi a primeira grande série especial brasileira ligada ao Mundial, teve produção limitada e hoje é um dos modelos mais emblemáticos e desejados pelos colecionadores. Pela raridade e pela importância histórica, acredito que seja o carro com maior potencial de valorização entre os nacionais relacionados à Copa”, acrescenta o comerciante.
Já Alex Fabiano, da GG World Premium Classic Cars, não vê potencial nesse tipo de modelo. “Vão valer um pouquinho a mais do que a versão convencional. Não são tão desejáveis porque fizeram muitos, não são numerados e passaram despercebidos”, avalia. De acordo com o comerciante, os colecionadores mais ávidos (e endinheirados) estão atrás das versões esportivas. “As pessoas querem o Gol GTI. Querem o Escort XR3, que é a bola da vez. Quem vai querer um Kadett Turim? As pessoas sonham com o GS e o GSi”, argumenta Fabiano.
Foco em modelos preservados
Para quem, empolgado com o desempenho da Seleção Brasileira na Copa 2026, decidiu ter um carro desses, Siciliano avisa: “O principal conselho é priorizar a originalidade. Emblemas, adesivos, rodas, bancos, acabamentos internos e outros detalhes exclusivos da série são justamente o que fazem a diferença no valor do carro. A mecânica normalmente é a parte mais simples de resolver; o difícil é encontrar esses itens específicos quando faltam ou foram substituídos ao longo dos anos”.
Por isso, muitas vezes vale mais a pena investir um pouco mais em um exemplar íntegro, com histórico conhecido e preservado, do que comprar um carro mais barato para restaurar depois. “Quando falamos de séries especiais, originalidade é tudo”, crava Siciliano.



