Enquanto a eliminação precoce da Seleção Brasileira na Copa do Mundo reacende críticas sobre a formação de atletas no Brasil, o Palmeiras mantém viva a filosofia que transformou o clube em referência: formar é prioridade, vencer é apenas consequência. Essa lógica embasa decisões pouco convencionais e motiva inovações constantes nos processos internos.
Veto a analistas de desempenho e celulares na base
O coordenador da base do Palmeiras, João Paulo Sampaio, revelou ao ge que há três meses não há analistas de desempenho para as categorias sub-16 e inferiores. “A preleção até 16 anos não pode mais ter vídeo, e agora que estou liberando alguns no sub-17, porque às vezes eles pulam direto para o profissional. O jogo é dinâmico, muda, então quero que o menino veja na prancheta e entenda o que o treinador vai falar”, explicou o dirigente.
Há uma semana, o clube anunciou também o veto a celulares no centro de treinamento da base e inaugurou uma área de leitura em homenagem ao técnico Abel Ferreira, como parte do processo de redução de telas no ambiente do clube. “Os meninos agora jogam dominó, ping pong. O capitão do sub-17, Yago, me chamou depois de um livro que indiquei e perguntou: posso pegar 25 exemplares e passar a todos para conversar? É uma parábola chamada 'A Boa Sorte', que fala sobre cuidar do jardim que as borboletas virão. É o que é o Palmeiras hoje”, comparou Sampaio.
Foco no desenvolvimento individual
As medidas têm por objetivo estimular a capacidade de interpretação e a tomada de decisão dos jovens jogadores, priorizando o desenvolvimento individual em detrimento da construção de equipes vencedoras a qualquer custo. A defesa desse modelo está atrelada a uma crítica ao cenário nacional. “Falta quem pense o futebol brasileiro. Jogador a gente vai ter a vida toda. A conversa é o que a gente quer. Quem pensa o futebol brasileiro? A diferença do Palmeiras desses anos todos é isso, sabe o caminho para ser o melhor”, afirmou o coordenador.
“O futebol brasileiro não tem caminho. E falar sobre ter caminhos é conseguir regras, fazer com que os times cumpram. A CBF é quem melhor faz campeonato de base, e os clubes não transmitem, colocam em campo ruim. Para quê? Para ganhar o jogo. E isso só piora a formação do seu atleta”, criticou Sampaio. “Essa é a discussão que ninguém está tendo, e pode ser pior daqui a quatro anos, estarmos discutindo as mesmas coisas com o Brasil eliminado na fase de grupos. Estou triste e revoltado com minha categoria, de formadores, porque está todo mundo preocupado em ganhar, em triturar gente, como acontece no profissional. Se não presta, manda embora. E trabalho de base exige tempo. É formar, depois ganhar”, sentenciou.
Estratégias ousadas de formação
Sem um projeto nacional comum que estabeleça objetivos para competições e clubes, o Palmeiras traça os próprios. Trata a base como uma escola e desafia atletas, provoca dificuldades e torna comum, para acelerar o aprendizado, tirar os principais jogadores de competições importantes ou acionar equipes mais jovens, mesmo que isso signifique perder jogos. “A gente vai se expor, jogar com meninos mais novos, tirar jogador para o futsal. Teve época de final do Paulista que tirei os melhores dribladores da categoria e levei para a Alemanha. 'Vai perder o título'. E daí? Quero que tenham a experiência da viagem”, exemplificou.
Na formação técnica, o conceito se repete. Há anos os meninos aprendem e jogam por no mínimo três funções, como aconteceu com Gabriel Menino, Danilo e Allan. Os camisas 10 são proibidos de jogar nos lados do campo. “Aqui no Brasil colocam na beirada para proteger. E em algumas situações é melhor, só que eles têm que ter a dificuldade por dentro, a falta de espaço. O 10 do juvenil tem um ou dois anos que o proibi de jogar por fora. Estêvão teve isso, Gabriel Veron teve isso. Eles rendiam menos, mas não quero que eles rendam, quero que se formem melhor”, explicou Sampaio.
Resultados da filosofia
Hoje, seis dos 27 atletas do elenco fixo do Palmeiras são da base. Outros três, que estouraram a idade, estão emprestados e somam à lista de dezenas de jogadores negociados nos últimos anos. Três deles (Endrick, Estêvão e Danilo Santos) fazem parte do último e do próximo ciclo da Seleção Brasileira.



