Argentina x Inglaterra: a história além do futebol na Copa do Mundo
Argentina x Inglaterra: a história além do futebol

Um confronto que transcende o esporte

Para os argentinos, não existe partida mais simbólica do que as quartas de final da Copa de 1986, contra a Inglaterra. Nenhuma das três decisões vencidas alcança este patamar. Mais do que um jogo histórico, é uma espécie de evento fundador da Argentina contemporânea. Quando a seleção de Bilardo entrou em campo, aquela camisa azul comprada às pressas no comércio popular mexicano, que depois se tornaria icônica, tanto que a Albiceleste usará hoje novamente, era movida não apenas pela ambição esportiva. Seu combustível era uma necessidade de vingança, alimentada com empenho nos quatro anos anteriores, desde a Guerra das Malvinas (para os ingleses, Falklands).

Sobre os sentimentos não exatamente nobres que latejavam nos corações castelhanos, Maradona depois declarou: "Culpávamos os jogadores ingleses pelo que havia acontecido nas Malvinas. Era uma loucura, mas sentíamos assim".

O jogo que definiu Maradona

Aquele jogo é definidor também da essência maradoniana. Pela vingança, a "Mano de Dios". Pelo futebol, o "Gol do Século". A santidade tramposa e a genialidade indomável, tudo isso em questão de minutos. A partida que o colocou no panteão dos heróis populares, ao lado de Carlos Gardel e Evita Perón.

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Nas arquibancadas, a hostilidade se manifestava sem pudor. Os hooligans viviam sua fase mais violenta e as barra-bravas argentinas compareceram em peso ao México -- torcedores de vários clubes rivais se uniram para trocar socos com os ingleses.

O contexto da Guerra das Malvinas

Toda essa atmosfera nasceu de um delírio compartilhado. Porque o conflito envolvendo o pequeno arquipélago no sul do Atlântico começou com um arroubo ufanista do ditador Leopoldo Galtieri. Como o regime militar já definhava, tentou alguma sobrevida tomando as ilhas do contestado domínio britânico para tentar inflamar o país. Como certa vez disse o jornalista Ariel Palacios, o alcoolismo dos militares argentinos resolveu desafiar a soberba inglesa.

Sofrendo fortes críticas e com eleições no ano seguinte, Margaret Thatcher aproveitou para responder à altura. Provavelmente surpreendeu os militares argentinos, pois até armas nucleares foram transportadas para a região -- o único conflito armado na América do Sul em que isso aconteceu.

As consequências do conflito

Muitos argentinos condenam ambos os lados. Apesar da defesa contundente de que as Malvinas são argentinas, como podemos observar nas faixas estendidas em vários jogos, nunca perdoaram os militares por terem enviado soldados mal preparados para o conflito. E também passaram a nutrir profundo rancor pelo Reino Unido, que teria reagido de maneira desproporcional -- 649 militares argentinos foram mortos; do lado britânico, houve 255 baixas.

Relações históricas entre Argentina e Inglaterra

A Guerra das Malvinas causou uma fissura impossível de remendar entre inimigos tão próximos. Muito antes, em 1806 e 1807, os ingleses haviam tentado tomar Buenos Aires, para abrir o comércio do Rio da Prata e conquistar um porto estratégico. Mas foram prontamente repelidos por milícias formadas por criollos (ou nativos). O desfecho era paradoxal para a Espanha: seguia com sua colônia, mas deixava evidente sua fraqueza para defendê-la -- e não havia tiki-taka que pudesse salvar. Em 1833, a Inglaterra tomou as Malvinas (e até hoje a questão se arrasta, com os diplomatas exaustos por sucessivas prorrogações).

Depois das tentativas frustradas de invasão, os ingleses perceberam que poderiam poupar energia: o país europeu passou a exercer forte influência econômica na Argentina, tornando-se seu principal parceiro comercial, investidor e financiador. Lá pelas tantas, cerca de dois terços das ferrovias argentinas pertenciam a empresas britânicas. O reflexo podia ser percebido na sociedade -- fundaram igrejas, hospitais, escolas. A influência, é claro, chegou nos clubes de futebol -- daí nomes como Racing, River Plate e Banfield.

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O impacto da guerra na cultura argentina

Em 1982, esse amor alimentado com dinheiro sofreu um duro golpe. Na época da Guerra das Malvinas, a ditadura chegou a proibir a emissão de música de língua inglesa. A Torre de los Ingleses, no bairro do Retiro, construída pelos próprios residentes britânicos para homenagear a revolução argentina, foi incendiada e rebatizada. Empresas de origem inglesa eram hostilizadas. Praças e ruas ganharam outros nomes. Quem havia pegado gosto pelo chá, talvez precisasse se esconder às cinco da tarde.

O Bar Británico, um dos bares notables de Buenos Aires, resolveu arrancar um pedaço da fachada e passou a se chamar Bar Tánico -- ficou décadas assim, até um turista avisar que Tánico lembrava thánatos, que era associado à morte. Aos poucos, as coisas se acalmaram. Especialmente depois que o barrilete cósmico que vestia a camisa 10 varreu as tropas inglesas no gramado do Azteca, recuperou um pouco do orgulho e reconquistou as Malvinas pelo menos em termos simbólicos. Mas, para termos noção da gravidade do momento, se chegamos ao ponto de um bar precisar trocar de nome é porque a diplomacia realmente havia fracassado.

A semifinal de 2023

Passaram-se 40 anos daquele acerto de contas improvisado em campos mexicanos. Para hoje, o técnico argentino, Lionel Scaloni, se apressou a afirmar que se trata apenas de um jogo. Harry Kane e Jude Bellingham talvez nem saibam onde ficam as Malvinas, como muitos ingleses em 1982. Em todo caso, a polícia de Atlanta já avisou que haverá reforço na segurança para o jogo. Mas, ao contrário do que poderiam desejar os ingleses, o VAR não terá efeito retroativo.