O Nação Zumbi fez da sua apresentação no João Rock 2026 um ato de resistência pela música autoral brasileira. No fim da tarde de sábado (1º), a banda pernambucana subiu ao palco Brasil do festival, em Ribeirão Preto (SP), e entregou um show repleto de significados. A apresentação marcou o retorno do grupo ao evento após nove anos e celebrou uma trajetória de quase 35 anos, com músicas que vão do debut "Da Lama ao Caos" (1994) ao aclamado "Afrociberdelia" (1996).
Antes de começar a tocar, o vocalista Jorge Du Peixe já havia estabelecido o tom da noite. “Isso aqui é uma resistência, para que a música do Brasil, a música autoral se mostre e se propague”, afirmou o cantor, em meio aos aplausos do público. Em seguida, convocou a plateia: “Vamos dançar e mexer o esqueleto e cantar junto”. A banda abriu o show com “Computadores Fazem Arte”, faixa de abertura do primeiro disco da Nação Zumbi, puxada por uma batida que remete à fusão de ritmos típica do manguebeat.
Encontro de gerações no repertório
A sequência do show mostrou a preocupação da banda em unir fases distintas. “Defeito Perfeito”, lançada em 2014, veio logo na sequência, seguida de “Foi de Amor”, também do mesmo projeto. As duas músicas provaram que o grupo segue criando com a mesma identidade que o consagrou, mas sem abrir mão das experimentações que marcaram sua discografia mais recente.
O repertório, no entanto, logo se voltou ao passado. O público respondeu com gritos de “Viva Chico”, em homenagem a Chico Science, fundador do movimento e falecido em 1997. A banda então emendou “Novas Auroras” e “Um Passeio no Mundo Livre”, uma das faixas mais emblemáticas do álbum “Afrociberdelia” (1996). Esse disco, o último gravado com Chico em vida, inspira a turnê mais recente do grupo e foi amplamente representado no show.
A força de “Afrociberdelia”
“Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada” foi outro momento de pura energia, com os tambores ecoando pelo parque. A canção abriu caminho para “Manguetown”, sucesso absoluto que atravessa gerações, e “O Cidadão do Mundo”, que também faz parte do mesmo projeto. A cada faixa, a plateia respondia com uma mistura de dança e nostalgia, reforçando a importância histórica do manguebeat para a música brasileira.
Mas a viagem no tempo não parou por aí. Com “Samba Makossa” e “Banditismo por uma Questão de Classe”, a banda revisitou o repertório de 1994, do disco “Da Lama ao Caos”, em uma sequência que uniu críticas sociais e ritmo contagiante. Essas músicas, quase trinta anos depois, seguem atuais e mostraram por que a Nação Zumbi é considerada um dos principais nomes da música pernambucana.
Momentos de pausa e explosão
Também houve espaço para desacelerar. Em “Um Sonho”, faixa de 2014, o público cantou, quase em uníssono, o trecho “Estão comendo o mundo pelas beiradas. Roendo tudo, quase não sobra nada”. A canção trouxe um clima mais introspectivo antes de a banda soar novamente em alto volume.
O ritmo acelerou de vez com “Quando a Maré Encher”, sucesso dos anos 2000 que ganhou ainda mais projeção na voz de Cássia Eller. Naquele momento, com a noite já tomando conta do Parque Permanente de Exposições, ficou claro que o encerramento seria apoteótico.
Despedida com “Maracatu Atômico”
Atendendo às expectativas, a Nação Zumbi deixou o público com gostinho de “quero mais” ao tocar “Maracatu Atômico”, um de seus maiores sucessos. A música, que também integra o icônico “Afrociberdelia”, foi a escolha perfeita para finalizar a participação no festival do interior de São Paulo.
Com uma apresentação que articulou passado e presente, o Nação Zumbi reafirmou seu lugar na história da música brasileira. O show no João Rock 2026 não foi apenas uma apresentação: foi uma celebração da resistência cultural do Nordeste e um lembrete do poder transformador do manguebeat.



