Reparação e Adulto/Homem: filmes brasileiros sobre luto e arte
Reparação e Adulto/Homem: luto e arte no cinema brasileiro

Olhar 2026: Reparação e Adulto/Homem

Dois filmes brasileiros, bastante interessantes: Reparação, de Marcus Curvelo, e Adulto/Homem, de Pedro Diógenes.

Reparação: um trabalho de luto autoficcional

Em Reparação, sua estreia na direção de longas, o baiano Marcus Curvelo aprofunda seu trabalho de autoficção. Ele está presente na maior parte das cenas, no papel que cumpre na vida real: o de filho. Acompanha a doença e a morte de sua mãe. Por isso, o filme é, acima de tudo, uma obra de luto. Freud chamava o processo de "trabalho de luto". É um trabalho mesmo, uma obra, um caminho a ser percorrido, com dor e esforço, e no qual o tempo é senhor de todo processo. Não adianta apressá-lo. Tudo tem seu tempo e é preciso concedê-lo a quem precisa processar a perda de um ente querido. Há lutos que terminam, o objeto perdido passando a morar em nós e a vida seguindo. Há trabalhos incompletos e o indivíduo que sofreu a perda arrisca-se a afundar na melancolia.

Isso para dizer que não se espere de Curvelo um processo de luto convencional. Ele tem tanto o pé na "normalidade" de alguém que sofre quando perde os pais, quanto de original na maneira de buscar o contato com quem já não está mais aqui. Filmado em preto e branco, com a janela de tela quase quadrada, abre um espaço para que o artista compartilhe a sua dor e seu processo de superação com o espectador. É uma obra generosa e bela, a perda em sua ação, mas vista através de procedimentos originais e criativos. A marca do artista tematiza a dor, compartilhando-a com os outros e não renunciando à criação.

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Adulto/Homem: rostos e vozes em plano-sequência

O cearense Pedro Diógenes poderia ter levado de modo convencional a sua investigação sobre a angústia de atores quando testados para alguma peça ou filme. Poderia fazer uma série de entrevistas com eles e montar um documentário de depoimentos, os famosos "cabeças falantes". Como é inventivo, toma outro caminho. Faz um filme de "cabeças não-faltantes". Como assim? Adulto/Homem é um plano-sequência de 70 minutos, que vai mostrando 20 rostos masculinos através de uma câmera que se desloca, milímetro por milímetro, da direita para a esquerda. Em off, ouvem-se vozes que falam de suas experiências em testes. A princípio, supõe-se que cada voz corresponde ao rosto da vez, que está sendo mostrado. Mas não é assim. E há vozes que não estão representadas na imagem de seus respectivos donos. É o caso de Demick Lopes, um dos mais conhecidos atores cearenses, de quem se ouve a voz mas não se vê o rosto.

Filtrados por esse dispositivo, ouvem-se depoimentos muito importantes. Tocantes como o do ator que é recusado e, obrigado a voltar para o trabalho que detesta, em um call center, chora no banheiro. Outros dizem de sua preocupação com o futuro. Não têm dinheiro, não têm poupança, não sabem o que vai acontecer quando ficarem velhos. Nem por isso cogitam deixar essa profissão (e arte) que adoram. Os depoimentos são entremeados por alguns textos literários, repetidos com diferentes vozes, com entonações, pausas e acentos diferentes, todas originais. Para reafirmar, sem precisar dizer, que cada voz é uma subjetividade, pertence a um ser singular, único, que não se parece com ninguém.

Referência a Kiarostami

Assistindo ao filme, o dispositivo me lembrou o de outro grande cineasta, Abbas Kiarostami, em seu Shirin. Há a encenação de uma peça, mas o palco não é mostrado. Trata-se da montagem teatral de um poema persa do século 12, só que o espectador nada vê, além da reação do público. Um público composto por 114 atrizes iranianas, e mais a diva francesa Juliette Binoche, que "interpretam" para nós o que só elas veem num suposto palco. Usam seus rostos para mostrar o que não vemos. É assim também em Adulto/Homem: a capacidade inesgotável de expressão dos rostos humanos, passados em sucessão, nos levam a um fluxo de consciência que, somado ao que ouvimos, ora falando do trabalho de ator, ora interpretando textos, produz um sentido possível. Cada um de nós, espectadores, criaremos o nosso. É muito bom e estimulante.

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