A chef baiana Solange Borges, pesquisadora e idealizadora do projeto Culinária de Terreiro, está preocupada com a descaracterização do acarajé nas redes sociais. Ela viu a receita tradicional ser 'desfigurada' por vídeos que usam liquidificador no lugar da moagem cuidadosa do feijão, óleo de soja substituindo o dendê e prometem um 'acarajé em poucos minutos' — até versões na air fryer. Para conter o dano, ela decidiu usar a mesma rede social para ensinar o preparo correto.
Crítica à substituição do dendê
Solange é enfática: 'Tem uma substituição que eu nunca aceito. Nunca aceitei. Nunca vou aceitar: trocar o azeite de dendê por outro óleo. Não é teimosia. É que, quando você faz essa troca, não está adaptando uma receita; está fazendo outro prato', esbravejou em uma postagem. 'O dendê não é só um meio de fritura. Ele é o ouro da cozinha baiana. Vem do fruto do dendezeiro, uma palmeira africana que chegou ao Brasil junto com o povo negro escravizado e aqui ficou, se adaptou, se multiplicou.'
História e tradição do acarajé
Solange começou a cozinhar ainda na barriga da mãe, embalada pelo cheiro da comida preparada pela matriarca. Aos 9 anos, assumiu um lugar no tabuleiro, empurrando o carrinho, moldando os bolinhos e aprendendo as tradições culinárias e ritualísticas do terreiro. Perdeu a mãe aos 45 anos e precisou sustentar a filha e o irmão mais novo. Tirou o sustento do acarajé, ampliou seu repertório na cozinha, estudou Letras e se formou na universidade. A filha também aprendeu a fazer acarajé, assim como o neto.
'Mas tem algo que se transforma. A gente tem conseguido fazer com que o acarajé deixe de ser só uma necessidade de sustento e passe a ser uma vontade de fazer', conta. Ela não se incomoda com versões gourmetizadas, mas critica o apagamento da história e dos povos sustentados pelo prato.
Engajamento nas redes e nova aula
Seus escritos inquietos, acompanhados de um vídeo em que preparava o verdadeiro acarajé, chegaram a 500 mil visualizações. Com os pedidos para ensinar o jeito certo, ela montou uma nova aula aberta ao público, por R$ 37. O valor arrecadado será destinado à manutenção do restaurante Culinária de Terreiro e do projeto de pesquisa sobre a memória da cozinha afro-brasileira, partilhando saberes ao lado de nomes como Ieda de Matos, Aline Guedes, Cidinha Santiago e Iza Souza.
A proposta é que quem participar aprenda a fazer a massa perfeita, o ponto correto do dendê, o jeito certo de deixar o feijão de molho e, além da técnica, mergulhe no saber ancestral e na contação de histórias.
Serviço
Aula: O passo a passo exato para fazer o acarajé leve, crocante e macio
Quando: 18/07, das 13h às 17h (ao vivo)
Ingressos: www.segredodoacaraje.com.br



