Blokecore e brazilcore se consolidam como movimento de moda
A Copa do Mundo tradicionalmente funciona como um grande catalisador de tendências, especialmente quando o assunto é camisa de futebol fora do estádio. Nos últimos anos, o blokecore e o brazilcore ganharam força ao transformar uniformes esportivos em peça central do guarda-roupa urbano. Com o fim do torneio, surge a pergunta inevitável: o que acontece com esse movimento quando o apito final já soou?
A resposta é transformação. O blokecore, que nasceu de uma estética britânica ligada ao torcedor comum — com camisas largas, jeans retos e tênis clássicos — já vinha se descolando do contexto estritamente esportivo para ganhar leitura de moda. O brazilcore, por sua vez, elevou a camisa da seleção brasileira a símbolo global, impulsionado por uma combinação de nostalgia dos anos 1990, cultura pop e a própria visibilidade internacional do país.
O estigma social das camisas de time fora dos estádios
Historicamente, usar camisa de time fora do jogo nem sempre foi visto com bons olhos. Durante muito tempo, no Brasil, essa prática carregou um estigma social claro, associada à ideia de algo popular demais, ou como se dizia de forma preconceituosa, “coisa de pobre”. A virada acontece quando a moda passa a absorver códigos periféricos e esportivos como linguagem legítima, reposicionando essas peças dentro de um novo contexto de valor simbólico.
“Me incomoda muito que o movimento sempre seja assim, de algo só virar tendência quando vira produto de playboy. Com os tênis foi a mesma coisa, as vendas só explodiram quando brancos da vanguarda da moda começaram a se interessar mais pelo streetwear no início dos anos 2000, e os tênis de basquete passaram a ser notados com entusiasmo fora da comunidade negra”, reflete o autor do artigo.
O futebol feminino como novo eixo
Com a Copa masculina encerrada, o ciclo não se encerra — ele muda de eixo. A próxima Copa do Mundo feminina, que ocorre no Brasil em 2027, já se desenha como um novo ponto de inflexão. Existe um interesse crescente pelo futebol feminino, não apenas pelo desempenho esportivo, mas também pelo potencial narrativo e cultural. E aqui entra um fator decisivo para o futuro do blokecore e do brazilcore: a participação das mulheres.
Se antes essas estéticas eram majoritariamente associadas a um imaginário masculino, agora há uma ampliação evidente. Mulheres têm reinterpretado camisas de futebol com novas proporções, combinações e códigos de estilo, misturando peças esportivas com alfaiataria, saias, acessórios e até elementos de moda mais sofisticada. Esse movimento tende a ganhar força com a visibilidade da Copa feminina. A presença de atletas como referências estéticas, a criação de produtos pensados para o público feminino e a expansão do interesse midiático criam um ambiente propício para que essas tendências avancem. A discussão sai do lugar de “usar ou não usar” e passa a ser “como usar”, com quais camadas de significado e em quais contextos.
Resposta das marcas e o futuro da tendência
Do ponto de vista técnico, as próprias marcas já começam a responder, com modelagens mais variadas, tecidos adaptados e coleções que não tratam o público feminino como extensão, mas como protagonista. Isso impacta diretamente a forma como essas peças entram no streetwear, ampliando possibilidades e quebrando padrões antigos.
Com isso, o blokecore e o brazilcore deixam de ser apenas reflexo de um evento esportivo específico e passam a integrar um ciclo contínuo de moda, identidade e cultura. “Espero que nesse novo momento, as mulheres não apenas participem, mas ajudem a redefinir os códigos que sustentam esse movimento. E que vão aos jogos, abracem o futebol feminino, porque os homens que fazem isso, os poucos que fazem, ainda o fazem mais por clubismo do que apelo esportivo”, afirma o autor.
“Sim, eu sei, deve ser bastante cansativo para as mulheres abraçar causas que vão contra elas o tempo todo, todas quase sempre recaindo em machismo. Mas os signos do futebol só serão menos masculinos quando as mulheres começarem a adotá-los em volume significativo, indo ao estádio, comprando produtos e valorizando as atletas. Todo homem usa o shampoo do Cristiano Ronaldo. Cadê o shampoo da Marta ou da Alexia Putellas?”



