A exposição 'Toda árvore tem raiz' reúne 36 obras da artista visual Yacunã Tuxá em um espaço cultural no Rio de Janeiro. Nascida no sertão baiano, Yacunã constrói seu trabalho a partir da memória do povo Tuxá e de uma reflexão profunda sobre sexualidade, gênero e identidade.
Em suas obras, a artista parte de um princípio: os povos indígenas tinham uma liberdade sexual que a cultura ocidental não reconhecia. Essa visão é o fio condutor da exposição, que provoca o espectador a abandonar olhares coloniais e a considerar outras formas de existência.
Uma perspectiva indígena sobre corpo e desejo
Yacunã Tuxá desenvolve uma poética visual que entrelaça o corpo individual ao corpo social. Na mostra, a sexualidade não aparece como tema isolado, mas como parte de um sistema de relações com a natureza, a espiritualidade e a vida comunitária. A crítica à moral ocidental é clara: a colonização também disciplinou os desejos.
Para a artista, é preciso recuperar a memória de um tempo em que a diversidade de expressões afetivas era vivida sem culpa. Essa liberdade, porém, foi silenciada e apagada pela imposição de valores externos. As obras funcionam, portanto, como instrumentos de restituição simbólica.
A Barragem de Itaparica e a resistência das mulheres Tuxá
O povo Tuxá viveu uma das maiores violências de sua história recente nos anos 1980. A construção da Barragem de Itaparica, no rio São Francisco, inundou a aldeia histórica e obrigou a comunidade a se reorganizar em outro território. O trauma da perda atravessa a produção de Yacunã.
Diante do desastre, as mulheres Tuxá se destacaram na liderança do processo de resistência. Foram elas que articularam a luta por direitos, pela memória e pela preservação da identidade cultural. Esse protagonismo feminino aparece na arte de Yacunã como uma herança afetiva e política.
As lembranças do cotidiano anterior à inundação — as casas de barro, as relações de parentesco, os ritos — são retomados nas obras como uma forma de reexistência. A artista não trata o passado com nostalgia, mas com a consciência de que a raiz continua viva sob a terra.
Peças de barro e saber ancestral
A exposição também abre espaço para o trabalho manual das mulheres da aldeia. Peças de barro utilitárias, produzidas por elas, são exibidas ao lado das obras contemporâneas de Yacunã. Essa curadoria aproxima o artesanato da arte erudita e valoriza conhecimentos transmitidos oralmente.
O barro, nesse contexto, é mais do que matéria-prima. Ele simboliza a terra, a ancestralidade e a continuidade do povo Tuxá. As peças carregam marcas das mãos que as moldaram, e cada uma conta uma história de sobrevivência.
Redes sociais e difusão das tradições
Yacunã Tuxá não se limita aos espaços expositivos tradicionais. Ela utiliza ferramentas digitais e redes sociais para difundir as tradições do seu povo, ampliando o alcance da mensagem indígena. Essa estratégia permite que a cultura Tuxá dialogue com as novas gerações dentro e fora das aldeias.
Na exposição, esse trânsito entre o ancestral e o contemporâneo é visível. As obras incorporam referências visuais atuais sem perder a conexão com a cosmovisão indígena. A artista mostra que tradição e inovação não são opostas, mas complementares.
O sentido da árvore e da raiz
O título 'Toda árvore tem raiz' resume a proposta da mostra. A árvore é uma metáfora do povo Tuxá: ainda que o tronco tenha sido atingido, as raízes permanecem profundas. Para Yacunã, conhecer as próprias raízes é condição para imaginar o futuro.
Com as 36 obras, a artista reforça a importância de narrativas indígenas contadas por quem as vive. A exposição no Rio de Janeiro, ao mesmo tempo, leva essa discussão para um público mais amplo, provocando reflexões sobre diversidade, memória e liberdade.
Ao visitar a mostra, o público é convidado a perceber que a história dos povos indígenas não terminou no passado. Ela se atualiza a cada gesto, a cada peça de barro, a cada traço digital — e se projeta como um convite para repensar o Brasil.



