Tradição da congada atravessa gerações em Silvianópolis há 246 anos
Tradição da congada em Silvianópolis há 246 anos

Em Silvianópolis, no Sul de Minas Gerais, a tradição da congada ultrapassa dois séculos e meio, mantendo-se viva por meio de famílias que repassam o legado de pais para filhos. A Festa de Nossa Senhora do Rosário, que completa 246 anos em 2026, é o palco principal dessa manifestação cultural. O Terno de Congada Nossa Senhora do Rosário, fundado em 1980, reúne hoje mais de 80 integrantes, entre crianças, jovens, adultos e idosos, todos unidos pela fé e pela preservação de uma herança ancestral.

Uma tradição de 246 anos

Marco Aurélio Valentim, capitão do Terno de Congada Nossa Senhora do Rosário, carrega a congada no sangue. Aos 56 anos, ele acumula 52 anos de participação ativa nos festejos, tendo iniciado ainda na infância, guiado pelos pais. "A gente nasce dentro do congado. Eu cresci guiado pelos meus pais e hoje vejo minhas filhas e meus netos seguindo o mesmo caminho. Ver minha família participando da congada é a prova de que essa tradição continua viva", afirma.

Embora o terno atual tenha sido fundado em 1980 pelos capitães Seu Nendi e Sô Felipe, a tradição na cidade remonta a 1780, quando teve início a Festa de Nossa Senhora do Rosário. Considerada uma das celebrações mais antigas do Sul de Minas, a festa mantém as congadas como elemento central, transmitidas de geração em geração. "Somos netos e bisnetos de congadeiros antigos. Essa tradição vem dos nossos ancestrais. O congado é uma forma de manter viva a nossa história", destaca Marco.

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Reconhecimento nacional fortalece a congada

Em 2026, o Terno de Congada Nossa Senhora do Rosário conquistou um marco importante: foi certificado pelo Ministério da Cultura como Ponto de Cultura, integrando oficialmente o Cadastro do Patrimônio Cultural dos Reinados e Congados de Minas Gerais. A certificação também inseriu o grupo na rede nacional do Programa Cultura Viva, possibilitando a participação em encontros, formações e intercâmbios culturais promovidos pelo ministério e por outros Pontos de Cultura do país.

"É uma alegria enorme ser reconhecido pelo Ministério da Cultura do Brasil como Ponto de Cultura. Isso mostra que nosso congado é vivo. Temos histórias e um grande legado dos nossos ancestrais e seguimos mantendo essa tradição, que é patrimônio cultural de Minas Gerais e do Brasil", comemora Marco Aurélio. Para ele, o reconhecimento reforça que o grupo vai além das apresentações musicais: "Nosso grupo não é somente um grupo de apresentação musical. Vai muito além. Somos um grupo de cultura viva, que desenvolve atividades durante o ano todo para fortalecer as histórias do congado, suas práticas musicais e seus saberes."

O pesquisador de Congados e Folias de Reis, Rafael Huhn, ressalta a importância da manifestação: "O Congado é uma das mais legítimas expressões da cultura do povo preto escravizado no Brasil. Ser reconhecido como Ponto de Cultura é reconhecer que essas práticas, esses saberes e essa memória continuam vivos."

O tambor como lugar de pertencimento

Entre os integrantes, Tyker Brenno Viana de Sousa, de 12 anos, encontrou na congada um espaço de acolhimento. Diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), ele cresceu acompanhando os cortejos ao lado do pai e do avô e hoje participa ativamente das apresentações. "O congado é minha família. Sou parte dessas pessoas que estão lá tocando tambor, cantando e louvando Nossa Senhora do Rosário", relata o menino.

Sua mãe, Karolyne Natli Viana Valentim, observa que a participação na congada ajudou o filho a desenvolver vínculos. "Ele tem dificuldade de interagir, mas dentro do congado é diferente. Ali é a casa dele, é a cultura da família dele, é uma ligação ancestral", conta. Ela destaca um momento marcante: "Ele não gosta de barulhos, mas quando coloca a roupa do congado, pega o tambor e começa a dançar, parece que aquele som faz parte dele."

O capitão Marco Aurélio ressalta que a participação dos jovens continua forte. "O congado tem essa energia de trazer os jovens para o grupo. A força do tambor tem um poder místico sobre eles. Nossa bateria é formada, na maioria, por jovens", afirma.

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Uma festa que movimenta toda a cidade

A Festa de Nossa Senhora do Rosário ocorre em dois momentos em junho: começa com o Levantamento do Mastro no segundo fim de semana e se encerra no último fim de semana, com três dias de celebrações que incluem congadas, cortejos, missas e a tradicional subida do Reinado. A organização fica a cargo da Associação de Caridade Nossa Senhora do Rosário, dos festeiros escolhidos pela comunidade e da Prefeitura de Silvianópolis.

A cidade, com aproximadamente 6,2 mil habitantes, vê sua população quadruplicar durante os festejos, com a chegada de visitantes e congadeiros de diversas regiões de Minas Gerais. "A Congada é o coração da nossa Festa do Rosário e o maior orgulho cultural de Silvianópolis. Ela une gerações, fortalece nossa autoestima e transforma a cidade em um espaço de pertencimento", destaca a moradora Maria Aparecida Moreira. Em 2020, a própria festa foi registrada como Patrimônio Cultural Imaterial do município.

Desafios para manter a tradição viva

Manter um grupo com mais de 80 integrantes demanda esforço e recursos. Os gastos incluem instrumentos, uniformes, alimentação e deslocamentos, tudo realizado de forma voluntária. Segundo Marco Aurélio, ninguém recebe remuneração: "Somos um grupo de cultura tradicional. Ninguém ganha para estar no congado. É por amor e tradição. Mas manter tudo funcionando exige recursos para instrumentos, alimentação e deslocamentos. Somos resistência."

Os tambores são um dos principais custos: cada pele de caixa custa mais de R$ 80 e precisa ser trocada com frequência. Os uniformes são confeccionados sob medida por costureiras especializadas. O período mais difícil foi a pandemia de Covid-19, quando os tambores silenciaram. "Nunca tínhamos deixado de cantar. Foi muito dolorido subir o mastro de Nossa Senhora do Rosário sem as congadas juntas, sem os tambores", relembra o capitão.

Uma história que segue sendo escrita

Fora dos dias de festa, o município mantém o Centro de Memórias e Tradições da Festa de Nossa Senhora do Rosário, que guarda fotografias, documentos e objetos históricos. Mas o principal patrimônio está nas famílias, nos cantos ensinados pelos mais velhos e nos tambores que passam de mão em mão. "A presença das crianças mostra que nossa tradição tem futuro", conclui Marco Aurélio Valentim.