Mãe Glorinha de Aziri: 80 anos de iniciação e guardiã do Candomblé Jeje no Rio
Mãe Glorinha de Aziri: 80 anos de iniciação e guardiã do Jeje

Mãe Glorinha de Aziri, uma das mais antigas Vòdúnsís do Brasil, celebra 80 anos de iniciação no Candomblé, consolidando-se como guardiã da tradição Jeje no Rio de Janeiro. Nascida em 16 de dezembro de 1945, foi iniciada ainda bebê, aos dois meses de vida, e concluiu sua iniciação em 3 de agosto de 1946. Sua trajetória está profundamente ligada ao Àṣẹ Ƙƥodaɠɓá, considerado o primeiro Terreiro da Nação Jeje estabelecido no Estado do Rio de Janeiro, cuja origem não passou pela Bahia, conforme relatos de importantes personalidades do Candomblé, como o professor Agenor Miranda, Mãe Dila de Ọbalúwáiyé, Ogan José Beniste, Mãe Damiana de Ṣàngó e Mãe Bida de Yemọja.

Origens do Terreiro Kpodaɠɓá: da Pequena África ao subúrbio

A história do Ƙƥodaɠɓá começa com Gayaƙú Rosena de Gbèsèn, africana oriunda da cidade de Alladá, no antigo Daɦomé, atual Benin. Segundo a tradição preservada pela casa, ela chegou ao Rio de Janeiro após 1850, trazendo os fundamentos de seu Vòɗʊ́ɲ Gbèsèn e estabelecendo o terreiro na região do bairro da Saúde, no Centro da cidade, área conhecida como Pequena África. Ao longo das décadas, o Terreiro acompanhou as transformações da cidade, passando por Cavalcante, Abolição, e sendo transferido para Coelho da Rocha, em São João de Meriti, durante a ditadura militar. Posteriormente, retornou ao bairro da Abolição, onde permanece até hoje.

A linhagem do Àṣẹ Gayaƙú Rosena iniciou poucas pessoas, entre elas Adelaide de Vòɗʊ́ɲjó, que herdou o comando da casa. Nascida em 1885, Adelaide tornou-se Mejitó do Ƙƥodaɠɓá e foi responsável pela formação de importantes sacerdotisas, entre elas Mãe Nathalina de Azǐri e Mãe Glorinha de Azǐri. Adelaide também contribuiu para a expansão da tradição Jeje no Estado ao fundar o Kwe Sinfá, em 1953.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Sacerdócio e vida acadêmica de Mãe Glorinha

Após o falecimento de Mejitó Adelaide, Mãe Glorinha herdou a missão de preservar o Ƙƥodaɠɓá ainda muito jovem. Sua formação foi complementada por Mãe Dila de Ọbalúwáiyé, que lhe transmitiu os ensinamentos deixados por Adelaide, incluindo os ƙùɦáɲ (rezas) e os jǐɦáɲ (cânticos), no idioma fon, assegurando a continuidade da tradição Jeje do Terreiro. Paralelamente ao sacerdócio, construiu sólida carreira acadêmica. Formou-se em Artes Visuais e Paisagismo pela UFRJ e dedicou cerca de cinco décadas ao magistério, lecionando Geometria Descritiva e História da Arte.

Em entrevista conduzida por Pedro de Soɠɓó, filho de santo de Mãe Glorinha e responsável pela organização das comemorações dos 80 anos de iniciação, a sacerdotisa compartilhou reflexões sobre fé, tradição e futuro. Em um dos trechos mais marcantes, Mãe Glorinha resumiu sua trajetória: "O futuro do Candomblé depende da fé, do respeito e da dignidade."

Entrevista exclusiva: fé, preconceito e continuidade

Questionada sobre suas expectativas para o futuro do Candomblé, Mãe Glorinha afirmou: "Espero que o Candomblé continue sendo uma religião baseada na fé, no amor ao próximo e, principalmente, no respeito aos Vòɗʊ́ɲ (s), aos Òrìṣà, aos Nkisi e às pessoas. Somente com respeito e dignidade construiremos um futuro promissor para nossa religião." Sobre a iniciação na infância, declarou: "Sempre encarei isso como uma grande bênção. Minha iniciação aconteceu por necessidade de saúde e nunca me trouxe qualquer sofrimento. Pelo contrário, sou profundamente grata aos Vòɗʊ́ɲ (s), pois acredito que foi uma dádiva em minha vida."

Indagada sobre a conciliação entre vida religiosa, estudos, casamento e profissão, respondeu: "Nunca houve conflito entre essas áreas. Cuidei da minha família, construí minha carreira como professora, cursei duas universidades e sempre consegui cumprir minhas obrigações religiosas. Tudo caminhou junto durante toda a minha vida." Sobre a família, revelou: "Minha história familiar está profundamente ligada ao Ƙƥodaɠɓá. Tenho ancestrais iniciados por Gayaƙú Rosena, minha mãe também pertenceu à tradição e meus filhos seguem caminhos ligados à espiritualidade. Dois deles, inclusive, foram iniciados em Ifá, tradição pela qual tenho grande respeito."

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Quanto ao preconceito na carreira profissional, Mãe Glorinha afirmou: "Felizmente, não. Sempre fui respeitada como professora. Pelo contrário, muitos colegas buscavam conhecer melhor o Candomblé e esclarecer dúvidas. Acredito que o ambiente acadêmico favorecia esse diálogo e era mais aberto à diversidade do que vemos atualmente." Sobre a possibilidade de abandonar a religião, foi enfática: "Jamais. Nunca passou pela minha cabeça abandonar o Candomblé. Entendo que nossa religião corresponde a um chamado ancestral. Todos os dias agradeço aos Vòɗʊ́ɲ (s) pela vida e peço proteção para minha família e para toda a humanidade. Também acredito que devemos respeitar todas as religiões e compreender a história que moldou o Brasil."

O terreiro está ativo? Mãe Glorinha responde

Em resposta às afirmações de que o Ƙƥodaɠɓá estaria inativo, Mãe Glorinha esclareceu: "Isso não corresponde à realidade. O Ƙƥodaɠɓá continua vivo. Seguimos preservando nossos ritos internos exatamente como aprendi com minha mãe espiritual e com Mãe Dila de Ọbalúwáiyé. Antigamente os candomblés não realizavam festas continuamente, muito em razão da perseguição policial. Essa tradição permanece. Hoje já existe uma sucessora preparada para dar continuidade ao Àṣẹ quando chegar o momento."

Como mensagem final, deixou: "Que todos tenham fé, amor e, acima de tudo, dignidade. Quem age com dignidade está sob o olhar de Mawú e de Ọlọ́run. Que nunca haja preconceito entre nós e que cada pessoa continue acreditando naquilo que faz, sempre respeitando o próximo."

Guardiã de uma tradição centenária

Celebrar os 80 anos de iniciação de Mãe Glorinha de Azǐri é reverenciar não apenas a trajetória de uma sacerdotisa, mas reconhecer uma das mais importantes guardiãs da tradição Jeje no Brasil. Sua história se entrelaça com a do Ƙƥodaɠɓá, um patrimônio religioso, histórico e cultural do Rio de Janeiro que atravessou gerações preservando seus fundamentos, sua memória e sua identidade.

Pai Paulo de Òṣàlá deixa seu ƙɔ̀loɲsí-ƙɔlofɛ́ a todo o Àṣẹ Ƙƥodaɠɓá e parabeniza: "Parabéns, Mãe Glorinha de Azǐri! Que Lissá, Mawú, Aɦòlò Gbèsèn e todos os Vòɗʊ́ɲ (s) continuem lhe abençoando hoje e sempre! Viva a Nação Jeje! Àcé Goɲzòɲ!"