Mario Quintana: poesia simples e curta viraliza nas redes sociais
Mario Quintana: poesia viraliza nas redes sociais

Os versos de Mario Quintana, nascido há 120 anos em Alegrete, Rio Grande do Sul, conquistaram as redes sociais com sua simplicidade e profundidade. O poeta, que faleceu em 1994, tornou-se um fenômeno digital, com seus poemas sendo compartilhados mesmo por quem desconhece a autoria.

O estilo que conquistou a internet

“Todos esses que aí estão / Atravancando meu caminho, / Eles passarão... / Eu passarinho!” — o famoso Poeminho do Contra exemplifica a capacidade de Quintana de dizer muito com poucas palavras. Para o professor Miguel Sanches Neto, reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), o poeta “faz parte das referências poéticas das pessoas comuns”. Ele afirma que os textos atribuídos a Quintana, “verdadeiramente ou falsamente”, mostram que seu estilo “se impôs nos frequentadores das redes sociais”.

O escritor Saulo Florentino, que estuda literatura nas redes, associa a fama atual ao fato de Quintana poetizar “sem se distanciar, sem confundir profundidade com complexidade”. Ele observa: “Tantas pessoas sentem que ele escreveu algo especialmente para elas”. Florentino define a sociedade atual como algo que “vive da circulação de frases” e se acostumou a “pequenos comprimidos de poesia”.

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A tríade do sucesso digital

O professor Emerson Rossetti, do canal Elite da Língua, identifica três aspectos convergentes na poética de Quintana que funcionam nas redes: a simplicidade da linguagem, a escolha de temas cotidianos e a expressão sintética. “Os versos do Quintana são curtos e isso tem a ver com o gosto do leitor de hoje, que procura essa economia de expressão nos tempos da internet”, afirma. Segundo ele, Quintana é o poeta do “antitextão”.

O cantor Márcio de Camillo, que adaptou a poesia para crianças no projeto Crianceiras, explica que “porque o verso é uma maneira rápida de leitura”, as redes estão “democratizando mais a poesia”. A simplicidade atrai também os pequenos: “Crianças e seus pais acabam consumindo poesia de uma maneira divertida”.

Vida e obra do poeta

Mario de Miranda Quintana nasceu em 30 de julho de 1906, em Alegrete, a mais de 500 km de Porto Alegre. Aos 13 anos, mudou-se com a família para a capital. Estudou no Colégio Militar e trabalhou na farmácia do pai. Na adolescência, já publicava textos em jornal escolar. Em 1924, aos 18 anos, conseguiu emprego na Livraria do Globo, inicialmente como desempacotador. Lá, integrou o grupo que transformou a livraria na Editora Globo, com Henrique Bertaso, Erico Verissimo e Mauricio Rosenblatt.

Quintana traduziu mais de 130 obras, incluindo “Em Busca do Tempo Perdido” de Marcel Proust e “Mrs. Dalloway” de Virginia Woolf. Atuou como jornalista na Revista do Globo e no Correio do Povo, onde manteve coluna cultural de 1953 a 1977. Seu primeiro livro, “A Rua dos Cataventos”, foi publicado em 1940. Seguiram-se obras como “Sapato Florido”, “Espelho Mágico”, “Quintanares” e “Da Preguiça como Método de Trabalho”.

Reconhecimento e polêmicas

Em 1966, aos 60 anos, Quintana foi homenageado com a “Antologia Poética”, seleção de 60 poemas organizada por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos. Na ocasião, foi saudado na Academia Brasileira de Letras (ABL) com poema recitado por Manuel Bandeira. No mesmo ano, recebeu prêmio da União Brasileira dos Escritores. No entanto, nunca foi eleito para a ABL, apesar de três tentativas. Luis Fernando Verissimo declarou: “Se Mario Quintana estivesse na ABL, não mudaria sua vida. Mas não estando lá, é um prejuízo para a própria Academia”. Em 1980, a ABL concedeu-lhe o prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra.

O poeta era conhecido por seu humor e autoironia. “Enquanto a poesia de seus contemporâneos buscava conversar com outros poetas, ele quis se conectar com o leitor comum”, diz Sanches Neto. “Não foi carreirista, não disputou espaços, não buscou nomeada. Era um poeta discreto.”

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A vida em hotéis e a ajuda de Falcão

A partir do final dos anos 1960, Quintana passou a viver em hotéis. Morou no Majestic (hoje Casa de Cultura Mario Quintana), depois no Presidente e no Residence. Por fim, foi acolhido no Hotel Royal, onde faleceu. Em 2012, um conto fictício do escritor Roberto Vieira viralizou, retratando Quintana despejado do Majestic e ajudado pelo jogador Paulo Roberto Falcão. O músico Henrique Mann, amigo do poeta, esclareceu que Falcão realmente ofereceu hospedagem vitalícia, mas sem humilhação. Falcão confirmou: “Eu estava em Roma quando a sobrinha do Mario falou com meu irmão que ele tinha deixado outro hotel e fizemos questão que ele ficasse hospedado conosco”.

Mario Quintana morreu em 5 de maio de 1994, deixando um legado de poesia simples e profunda. O linguista Vicente de Paula da Silva Martins resume: “Consegue dizer muito usando poucas palavras”. Essa característica garante sua presença constante nas telas dos brasileiros.