Durante o trajeto de ônibus entre o Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT) e sua casa no bairro Pedra 90, em Cuiabá, Flavia Eduarda Guimarães Pinheiro, de 17 anos, transformava sentimentos em versos. O que começou como um refúgio pessoal tornou-se reconhecimento nacional: a estudante já coleciona premiações literárias e desponta como jovem promessa da literatura brasileira.
Premiações e reconhecimento
Flavia foi classificada no 3º Concurso Portinho Livre de Literatura Infantojuvenil, promovido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e conquistou o 7º lugar na categoria juvenil do XXIV Concurso 'Fritz Teixeira de Salles' de Poesia. Ela foi a única representante de Mato Grosso entre os dez primeiros colocados da categoria, com o poema Entre a Dor e a Própria Vida.
A estudante contou que nunca imaginou ver textos escritos ainda na adolescência sendo premiados em concursos de alcance nacional. 'No começo, escrever era apenas um refúgio. Era o lugar onde eu conseguia colocar em palavras tudo aquilo que não conseguia dizer em voz alta', disse.
Inspiração na periferia
A literatura de Flavia tem endereço certo: o bairro Pedra 90. Lá, ela encontra personagens, lembranças e inspirações para construir seus textos. Ao contrário da imagem frequentemente associada ao bairro, ela prefere destacar histórias de afeto, resistência e pertencimento. 'Quero mostrar que a nossa comunidade também produz arte, conhecimento, sensibilidade e talento', ressaltou.
Jovem negra, ela vê a escrita como uma oportunidade de ocupar espaços e ampliar a representação de autores da periferia.
O papel da escola pública
Flavia atribui parte das conquistas ao ensino público. Aluna do IFMT, ela diz que foi na instituição que encontrou incentivo para desenvolver a escrita e disputar concursos nacionais. Segundo a estudante, o contato com diferentes áreas do conhecimento e o ambiente acadêmico fortaleceram sua formação como autora e mostraram que estudantes da rede pública podem competir em igualdade de condições.
Dor transformada em esperança
Entre os textos mais significativos da jovem está o poema Quando o Sol Retorna, publicado em uma antologia da Editora Versi Prosa. A obra foi inspirada na luta da mãe contra um câncer de útero. 'Ela enfrentava tudo sorrindo e ainda encontrava forças para levar esperança para outras pessoas', disse Flavia. A mãe recebeu a cura da doença em setembro de 2024.
Futuro entre cálculos e poemas
Apesar das conquistas na literatura, o maior sonho profissional da estudante está na Engenharia Civil. Apaixonada por cálculos e projetos, ela acredita que poderá conciliar a futura profissão com a escrita. Atualmente, Flavia prepara uma nova obra, a fábula O Espelho que Chorava Estrelas, inspirada na cultura e na natureza de Mato Grosso, que será inscrita em novos concursos.
Para quem sonha em seguir o mesmo caminho, ela deixa um conselho: 'Comece, mesmo que pareça pequeno. Escreva seus textos, mesmo com medo. Vá com medo, mas vá'. A jovem afirma que pretende continuar levando o nome de Cuiabá e de Mato Grosso para novos concursos pelo país, provando que grandes histórias também podem nascer na periferia.



