Na véspera da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) 2026, que começa nesta quinta-feira, 23 de julho, a escritora Socorro Acioli respondeu a uma pergunta inusitada: qual drinque melhor harmoniza com seu novo livro, Amar é Inadiável? Sem hesitar, escolheu a cajuína. "Cresci tomando bem gelada. É a bebida da minha vida", disse ao Estadão.
A resposta certeira inspirou o Paladar a convidar outros 14 autores brasileiros de renome para escolher o drinque que melhor representa um de seus livros. O resultado é uma carta literária que une literatura e coquetelaria, com harmonizações surpreendentes.
Doses rápidas e longas
Andrea Del Fuego foi categórica ao associar seu romance A Pediatra a uma dose de tequila, "para ser tomada de uma vez", refletindo a protagonista Cecília, impaciente com crianças e pais.
Já Natália Timerman, autora de Antes que Apague, escolheu um Negroni (gim, vermute tinto e Campari) para ser bebido aos poucos. No livro, a mãe da narradora perde a memória rapidamente, e a autora explicou: "Difícil de beber de uma vez."
Drinques complexos para livros instigantes
Flávia Braz também optou por um Negroni para O Que Resta a Partir Daqui, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. Segundo ela, o amargor inicial engana, assim como a linguagem ácida do romance: "O paladar leva tempo para se acostumar, mas depois percebe notas de doçura. Assim como o Negroni, a personagem exige tempo de entrega." Ela recomenda deixar o gelo derreter.
Mariana Salomão Carrara imaginou o protagonista de Cláudia Vera Feliz Natal tomando um Long Island Iced Tea, por sua mistura de várias bebidas. "O personagem é um juiz que não gosta de decidir. O Long Island combina porque parece incapaz de escolher uma bebida só", disse. Na cena, ele está sozinho na cozinha, em Feliz Natal (MT), enchendo o copo com um pouco de cada garrafa. "O resultado é tão deslocado quanto ele próprio. Não há ninguém para brindar."
Bloody Mary: mesmo drinque, motivos diferentes
Liana Ferraz e Amara Moira escolheram o Bloody Mary (vodca, suco de tomate, limão, molho inglês, pimenta, Tabasco e salsão) por razões distintas. Amara, autora de Neca, vê conexão com o deboche do drinque: "Os ingredientes improváveis lembram o bajubá, linguagem das travestis prostitutas, e a poesia esquisita do livro. O nome sacrílego combina com o deboche das páginas."
Liana associa o Bloody Mary à cilada: "É só suco até você tentar levantar e perceber as pernas bambas. O drama do nome evoca a poeta que existe em nós." Ela faz referência à protagonista de Um prefácio para Olívia Guerra.
Três caipirinhas, três leituras
Eliana Alves Cruz sugeriu uma caipirinha (cachaça, limão, açúcar e gelo) ou caipivodca para Meridiana. A troca não é aleatória: "Dependendo da marca, a bebida torna-se inacessível para quem vive na favela e possível para quem mora no condomínio Bougainville", refletindo os contrastes sociais do romance.
Bianca Santana recomenda uma caipirinha de seriguela com cachaça Caribé para Apolinária: "A seriguela e a cachaça carregam o sabor do Brasil ribeirinho e sertanejo." Ela alerta para moderação, pois a protagonista e seu filho tiveram relação difícil com o álcool. "Se fosse a própria Dona Polu, escolheria uma cerveja preta."
Alexandre Vidal Porto muda de drinque ao longo de Só Depois Entenderei: a primeira parte pede algo forte como caipirosca; a segunda, kombucha ou água de coco. O livro acompanha um funcionário do Itamaraty que encontra na internet uma relação clandestina com um homem casado.
Brut, Cosmopolitan, Penicillin e hibisco
Ana Suy escolheu o brut para A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão: "A gente mira no glamour e acerta numa secura suave." Ingrid Fagundez associou a sangria a Diário do Fim do Amor: "No sabor é leve, refrescante, mas a cor lembra o sangue das paixões complexas."
Giovana Madalosso imaginou a protagonista de Tudo Pode Ser Roubado servindo um Cosmopolitan (vodca, Cointreau, suco de cranberry e limão), típico de restaurante badalado. Fabiane Secches escolheu o Penicillin (uísque, limão, mel, gengibre) para Ilhas Suspensas: "O nome dúbio ecoa o início do romance, com medicações, e depois reaparece como prazer."
Tamara Klink revelou que toma chá de hibisco gelado para harmonizar com Boa Noite, Inverno. Na Passagem Noroeste, esqueceu o pacote aberto e as flores caíram no barco: "Passei meses com água roxa. São os mesmos hibiscos há três anos."
Entre um gole e outro, os escritores mostraram que livros também podem ser degustados como drinques. Um brinde à leitura!



