O Bonito CineSur — Festival de Cinema Sul-Americano de Bonito — dedicou a tarde deste sábado (1º) à exibição de dois documentários que colocam a fé e a cultura popular em primeiro plano. Os filmes “Sob o Manto e a Luz” e “Folia de Reis – Um Registro Histórico para a Comunidade de Águas do Miranda” foram produzidos por cineastas locais, muitos com passagem pelas oficinas do próprio festival, e reafirmam a religiosidade como marca da identidade bonitense.
Realizado em Bonito (MS), o festival se consolidou como vitrine para produções sul-americanas e também para novos talentos do audiovisual regional. Nesta edição, as obras escolhidas para a mostra partiram de histórias reais de devoção, vividas por moradores do município e do distrito de Águas do Miranda.
Folia de Reis: seis décadas de fé baiana no coração de MS
O documentário “Folia de Reis” apresenta a manifestação de fé que Amarílio Modesto da Silva, de 87 anos, trouxe da Bahia para o distrito de Águas do Miranda, em Bonito. Segundo o filme, a celebração mobiliza a comunidade há mais de sessenta anos, mas ainda é pouco difundida fora da região. Foi exatamente esse desconhecimento que chamou a atenção do diretor Márcio Chimenes de Gois.
“O principal motivo foi perceber que eu não conhecia esse movimento cultural e que ninguém da minha família ou dos meus amigos que vivem aqui em Bonito também não sabia da existência dessa tradição. Achei que valia a pena fazer esse registro para que mais pessoas da cidade conhecessem essa história”, explicou Márcio, que também assina a direção ao lado de novos realizadores.
Para registrar a festa, a equipe trabalhou durante uma única tarde, acompanhando a preparação dos foliões e os momentos centrais da celebração realizada em 2025. As imagens destacam o encontro entre o sagrado e o ambiente ao redor. Um dos cenários escolhidos foi a área seca sob a ponte do Rio Miranda, onde a estiagem dos últimos anos deixou marcas evidentes.
“A gente fez questão de gravar ali para mostrar também a situação do rio. Não era daquele jeito antigamente”, comentou Márcio, unindo no curta a memória cultural e a preocupação ambiental.
Amarílio, guardião e principal personagem do documentário, relembra como a tradição passou de geração em geração. “Meu pai passou para mim e hoje, aos 86 anos, continuo levando esse legado adiante”, contou. Ele também celebrou a oportunidade de participar do filme. “Gostei demais da ideia. Foi uma grande satisfação fazer esse filme com eles. São pessoas muito boas e fiquei muito feliz com o resultado”, disse.
Para o morador, o documentário tem papel essencial na preservação da memória da Folia de Reis e no contato das novas gerações com essa tradição. “Ajuda muito. Um filme como esse ajuda e muito a manter viva essa história”, destacou.
Sob o Manto e a Luz: a romaria do Sinhozinho nas telas
Já “Sob o Manto e a Luz” mergulha na Romaria do Sinhozinho, caminhada de fiéis que ocorre todos os anos em 12 de outubro, feriado de Nossa Senhora Aparecida, rumo à Capelinha do Sinhozinho. O local é um dos principais pontos de devoção popular de Bonito. A narrativa percorre a história do lendário Sinhozinho, curandeiro e rezador que teria vivido na região durante os primeiros anos do município. Depois de desaparecer misteriosamente, ele se tornou uma figura venerada por moradores e romeiros.
O diretor Genivaldo Luz participou das oficinas de audiovisual promovidas na edição anterior do Bonito CineSur e, a partir delas, nasceu a ideia de produzir o filme. “Participei de todas as oficinas realizadas no ano passado, e isso despertou em mim a vontade de produzir um filme. Hoje, ver esse trabalho selecionado para o festival é motivo de muita alegria para todos nós”, afirmou.
Segundo Genivaldo, a produção busca mostrar ao público a força dessa manifestação e sua ligação com a identidade cultural do município. Para ele, o audiovisual é também um caminho para mostrar outra face de Bonito, reconhecida mundialmente pelo ecoturismo. “Bonito não é apenas ecoturismo. Também é cinema e produção audiovisual. O festival agrega muito à cidade e incentiva novos produtores da comunidade a participarem desse universo”, ressaltou.
Festival reafirma a cultura como patrimônio de Bonito
A mostra deste sábado foi um retrato de como o Bonito CineSur vem contribuindo para a formação de novos realizadores e para o registro de manifestações que resistem ao tempo. Os dois documentários — um sobre a Folia de Reis, outro sobre a Romaria do Sinhozinho — transformam a devoção popular em patrimônio audiovisual e criam pontes entre o passado e o futuro da comunidade.
Ao ocupar as telas com histórias de fé contadas por quem vive essas tradições, o festival amplia o alcance dessas celebrações e convida o público a enxergar Bonito também sob a ótica de sua religiosidade e de sua produção cinematográfica.



