A pré-estreia do documentário "Entre Armários e Luzes" será realizada nesta quinta-feira (2), às 19h, no Teatro da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá. Dirigido por João Augusto Barbosa, o documentário abre a mostra de curtas da 23ª edição do Festival de Cinema de Cuiabá (Cinemato) e resgata a história do início da cena noturna LGBTQIAPN+ em Mato Grosso.
Produção reúne depoimentos e imagens históricas
A produção reúne depoimentos, imagens e relatos que ajudam a reconstruir parte dessa trajetória. O foco está na formação da cena LGBTQIAPN+ em Cuiabá, a partir da festa Mascarade, considerada um marco para a comunidade no estado. Para o diretor, o documentário nasceu da necessidade de preservar essa memória e registrar histórias que ajudaram a transformar a realidade da população LGBTQIAPN+ em Mato Grosso. "Costumo lembrar uma frase do artista plástico João Sebastião: 'Quem morre em Cuiabá morre duas vezes, uma pela morte e outra pelo esquecimento'. Não podemos deixar essa história se perder", parafraseou o amigo João Sebastião.
Segundo Barbosa, o filme também mostra que a construção desse movimento foi coletiva. Para ele, a Mascarade e as centenas de festas produzidas por Menotti Griggi, um dos roteiristas do documentário, arcaram diferentes gerações e ajudaram a fortalecer a comunidade LGBTQIAPN+ no estado. "Ninguém constrói uma história sozinho. Clóvis Arantes, DJ Charles Pitter, Luiz Marchetti, Sarah Mitch e tantas outras pessoas ocuparam espaços, enfrentaram desafios e abriram portas para que hoje possamos contar essas histórias com mais liberdade e orgulho. O documentário é uma homenagem a essas referências, mas também um convite para entendermos que essa história ainda está sendo escrita", afirmou.
Significado pessoal para o diretor
O diretor também afirmou que o projeto tem um significado pessoal, já que ele participou dos acontecimentos retratados no filme. "Em muitos momentos, dirigir foi revisitar memórias e reencontrar pessoas que ajudaram a construir essa trajetória. Ver 'Entre Armários e Luzes' abrir a mostra de curtas do Cinemato torna tudo ainda mais especial. É uma história muito íntima que agora ganha luz e encontra outras pessoas dispostas a ouvi-la, se emocionar e, quem sabe, se reconhecer nela", contou.
Mascarade, o "Stonewall cuiabano"
Antes do documentário, a história da comunidade LGBTQIAPN+ em Cuiabá passa pela Mascarade, festa criada em 1995 por Menotti. Inspirado nas baladas LGBTQIA+ dos eixos Rio-São Paulo, o evento é considerado por João Augusto o "Stonewall cuiabano", em referência simbólica à Rebelião de Stonewall, ocorrida em 1969, nos Estados Unidos, por representar um marco na visibilidade e na ocupação de espaços pela população LGBTQIAPN+ na capital mato-grossense. "Durante 31 anos vivi intensamente essa história. Vi pessoas chegarem, outras partirem e acompanhei muitas conquistas, mas também o preconceito e a violência contra a população LGBT. Sempre tive receio de que tudo isso se perdesse com o tempo. O documentário dá luz a essa memória e mostra às novas gerações como essa caminhada foi construída", afirmou Menotti.
Menotti contou ainda que guardou fotografias, flyers e outros registros das festas ao longo dos anos e acredita que o documentário ajuda a mostrar às novas gerações como foram conquistados direitos hoje vistos com mais naturalidade. "Nós ajudamos a construir essa cena cultural, que também foi uma forma de resistência. Espero que a Mascarade continue viva como símbolo da luta da população LGBT de Mato Grosso e que 'Entre Armários e Luzes' mantenha essa memória viva, porque um povo sem memória corre o risco de perder também sua identidade e suas conquistas", afirmou.
Divulgação artesanal e sucesso surpreendente
Na época, a internet ainda não fazia parte do cotidiano. A divulgação da Mascarade foi feita com flyers distribuídos de mão em mão, sem que os organizadores soubessem qual seria a reação do público. A festa ocorreu em um casarão desocupado da escritora Glória Albues, no Centro de Cuiabá. "Não tínhamos ideia de quem iria ou de como as pessoas reagiriam. Aos poucos elas foram chegando e, quando vimos, tinha fila na porta. A festa terminou com o dia claro, porque ninguém queria ir embora. Durante dias, a cidade só falava da Mascarade", relembra João Augusto Barbosa.
Segundo o diretor, a festa rompeu padrões para a época ao reunir, pela primeira vez, música eletrônica, apresentações de drag queens, go-go boys e um público diverso em um mesmo espaço. O sucesso da Mascarade deu origem a uma série de festas produzidas por Menotti, que marcaram diferentes gerações e ajudaram a consolidar a cena cultural LGBTQIAPN+ em Mato Grosso. "Cuiabá nunca tinha visto tanta liberdade junta. O mais interessante é que não era apenas o público LGBT. Era uma mistura de gente de todo tipo convivendo em harmonia, com respeito, onde o único objetivo era se divertir", afirma.
Primeira Parada do Orgulho de Cuiabá
Para Menotti, outro momento decisivo para a comunidade LGBTQIAPN+ de Cuiabá aconteceu em 1997, durante uma festa de Halloween organizada por ele. Segundo o produtor, o episódio deu origem, de forma espontânea, ao que considera a primeira Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ da capital. "Em 1997, eu promovia uma festa de Halloween na Casa Cuiabana, quando fiscais, bombeiros, policiais e representantes de outros órgãos chegaram e determinaram o encerramento do evento, que estava lotado. Naquele momento, conseguimos transferir toda a festa para outro espaço que tinha alvará e funcionava regularmente. Em cerca de 40 minutos, desmontamos tudo e levamos equipamentos, decoração e bebidas para o Baratos e Afins", explicou.
À época, cerca de 400 pessoas percorreram a Avenida Getúlio Vargas fantasiadas para chegar ao novo local da festa. Para ele, aquela caminhada espontânea marcou a primeira ocupação coletiva das ruas pela comunidade LGBTQIAPN+ em Cuiabá. "Depois da Mascarade, em 1995, esse foi o acontecimento que mais fortaleceu o nosso movimento. A partir dali entendemos que precisávamos defender nossos espaços de convivência e nossos direitos. Alguns anos depois, essa mobilização resultou na realização da primeira Parada do Orgulho LGBT de Cuiabá, organizada por mim, Clóvis Arantes e Valdomiro Arruda", relembrou.
Ao longo de mais de três décadas, Menotti promoveu mais de 300 festas voltadas à comunidade LGBTQIAPN+, ajudando a consolidar a cena cultural e a diversidade em Cuiabá.



