Aos 80 anos, Maria Bethânia reina nos palcos com presença magnética
Aos 80 anos, Maria Bethânia reina nos palcos com presença magnética

Maria Bethânia completa 80 anos nesta terça-feira, 18 de junho, cercada de homenagens nas redes sociais e na imprensa cultural. Ao longo de 61 anos de carreira fonográfica, a cantora construiu uma discografia praticamente impecável. No entanto, há consenso entre seus seguidores de que é no palco que a intérprete se manifesta em toda a sua plenitude. Bethânia doma os palcos com uma presença cênica magnética, e foi exatamente em cena que ela despertou a atenção do Brasil pela primeira vez, em fevereiro de 1965, ao cantar “Carcará” no teatralizado show “Opinião”.

Trajetória nos palcos

Desde então, Maria Bethânia se impôs como a senhora da cena. No início, seus shows eram realizados em boates. Depois, passaram a ser feitos em teatros, habitat natural para uma intérprete de veia dramática. Com o aumento de sua popularidade a partir da segunda metade da década de 1970, a cantora passou a se apresentar em grandes casas de shows. Recentemente, transitou por arenas e estádios do Brasil ao lado de Caetano Veloso, em uma turnê calcada na magnitude do reencontro dos irmãos no palco. A força de Bethânia é a mesma em um estádio ou em uma casa pequena de pouco mais de 100 lugares, como o clube carioca Manouche, onde ela estreou o show “Claros breus” em julho de 2019.

O molde do espetáculo conceitual

Com o auxílio do diretor Fauzi Arap (1938-2013), Maria Bethânia cristalizou um molde de espetáculo conceitual em que músicas e textos, geralmente poemas, se costuram em roteiros que jamais perdem o fio da meada. O embrião dessa fórmula foi o show “Comigo me desavim”, estreado em 1967. Entretanto, foi a partir do antológico espetáculo “Rosa dos ventos – O show encantado”, em 1971, que a costura se alinhavou e deu o tom dos shows posteriores da artista.

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Dentro do (limitado) raio de visão do colunista e crítico musical do g1, os espetáculos “Nossos momentos” (1982), “Imitação da vida” (1997), “Maricotinha” (2001), “Dentro do mar tem rio” (2006) e “Abraçar e agradecer” (2015) se destacam na trajetória de Maria Bethânia nos palcos. É na cena que explode a aguçada inteligência da intérprete, capaz de editar um longo poema de Fernando Pessoa (1888-1935) com timing preciso para que os versos surtam o maior efeito possível na plateia. Inflexões e pausas feitas no momento certo revelam-se tão importantes quanto o canto em si.

A força da interpretação

Bethânia é bicho de palco. Sabe onde pisa. Por isso, domina a cena, sendo capaz de revitalizar uma música antiga, potencializando o sentido dessa composição ao reapresentá-la em um medley sagaz. Basta lembrar a junção do samba “Purificar o Subaé” (Caetano Veloso, 1981) com “Miséria” (Arnaldo Antunes, Paulo Miklos e Sérgio Britto, 1989) – sucesso do grupo Titãs – no show “Brasileirinho” (2003). Tudo fez sentido.

Bethânia sempre soube que um show jamais pode ser a mera reprodução de um disco. É preciso que o roteiro ofereça algo mais, nem que seja uma música inédita no repertório da artista. Foi assim que “Gitã” (Raul Seixas, 1974) magnetizou os espectadores do show feito por Bethânia com Chico Buarque em 1975. Foi também assim que “Vida”, canção lançada pelo mesmo Chico Buarque em 1980, reapareceu dois anos depois, intensa e definitiva na interpretação de Bethânia no show “Nossos momentos” (1982). Momentos de luz – “Luz, quero luz!”, bradava ao cantar “Vida” – de voz e de sonho, como poetizou Caetano Veloso na canção feita para o espetáculo de 1982. Momentos intensos. Momentos do amor demais que brota do canto magnético de Maria Bethânia a cada vez que essa senhora cantora entra em cena para domar o palco.

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