Boa notícia para quem gosta de cinema e música, especialmente quando combinados. Já começou o In-Edit, o festival de documentários musicais, trazendo uma vasta seleção de filmes do gênero. Somente na competição brasileira, há nove documentários, muitos deles de excelente qualidade. A programação deste ano inclui 38 filmes brasileiros e 28 estrangeiros, totalizando 66 obras.
Destaques Brasileiros
Dos brasileiros, alguns já conhecidos merecem atenção especial:
Dona Onete - Meu Coração Neste Pedacinho Aqui
Dirigido por Mini Kerti, o documentário acompanha a trajetória da paraense Dona Onete, que passou de professora e militante sindical a fenômeno internacional. Personalidades como Gaby Amarantos, Jaloo e Manoel Cordeiro comentam sua carreira. O filme apresenta seu repertório de banzeiros, botos e sabores da floresta, com humor e sabedoria. Com abordagem tradicional, o documentário foca em apresentar essa personagem incrível, sem grandes inovações na linguagem cinematográfica, mas com boa produção e muitas músicas.
Flora & Airto - o Som Revolucionário
De Jom Tob Azulay, o filme retrata o casal Airto Moreira (percussionista) e Flora Purim (cantora), que alcançaram enorme sucesso nos Estados Unidos, trabalhando com lendas do jazz como Miles Davis, Chick Corea e Cannonball Adderley. Premiados e reconhecidos como grandes nomes da música, hoje idosos, vivem no Retiro dos Artistas, no Rio. Convidados a gravar um novo disco, o filme registra as gravações em estúdio, o processo criativo, a escolha do repertório, as dificuldades e momentos emocionantes, como quando Flora entoa o clássico Carinhoso, de Pixinguinha, com sua voz única.
Entre o Sucesso e a Lama
Dirigido por Cristiano Burlan, o documentário acompanha 16 artistas, com mentoria de rappers como Gaspar Z'África e Edi Rock, que se reúnem para criar um álbum inédito. O local de encontro, o Teatro do Container, em São Paulo, está sob ameaça de despejo, em um litígio envolvendo construtoras, prefeitura e guarda municipal. Burlan, conhecido por seu estilo direto, entrega mais um trabalho contundente.
Ninguém Pode Provar Nada
De Rodrigo Pinto, o filme traça um perfil documental e ficcional do jornalista e produtor musical Ezequiel Neves. Com 60 horas de entrevistas e material de arquivo, acompanha a trajetória de Ezequiel, ou Zeca, e seu amigo Cazuza. A obra revela os bastidores de uma fase crucial do rock brasileiro através de um personagem que lembrava fatos, mas também os recriava conforme sua imaginação.
Universo Circular - Jocy de Oliveira
Dácio Pinheiro dirige este documentário sobre Jocy de Oliveira, figura central da vanguarda musical brasileira e introdutora da música eletrônica no país. Aos 90 anos, lúcida e ativa, relembra sua vida, incluindo seu casamento com o maestro Eleazar de Carvalho e convivência com mitos como Igor Stravinsky, Luciano Berio, John Cage e Karlheinz Stockhausen.
Vivo 76
Lírio Ferreira, coautor de Baile Perfumado, aborda o nascimento do álbum Vivo!, terceiro de Alceu Valença, lançado em 1976. O próprio Alceu conduz a trama, numa viagem aos anos 1970, imerso na psicodelia e contracultura pernambucana e brasileira, mesclando música, literatura, artes visuais e atitude contestadora durante a ditadura militar.
Apopcalipse Segundo Baby
Rafael Saar dirige este documentário sobre Baby do Brasil, que narra sua vida desde a adolescência, quando deixou Niterói de ônibus para a Bahia, então meca dos jovens em um Brasil autoritário. Imagens de arquivo mostram suas transformações, de Baby Consuelo a Baby do Brasil, do pensamento libertário à conversão religiosa, com muita música e bom ritmo cinematográfico.
Ary
André Weller apresenta mais que uma biografia: um perfil pessoal do compositor de Aquarela do Brasil e Na Baixa do Sapateiro. A estratégia de Weller, também diretor de arte e pianista, é usar uma voz ficcional (Lima Duarte) que encarna Ary Barroso, contando sua história a partir de textos e depoimentos do próprio compositor. O dispositivo lembra o de Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas, com o defunto-autor narrando sua vida post mortem.
O filme mostra a vida de Ary, desde a orfandade precoce e as aulas de piano com uma tia severa, até o sucesso no Rio e em Hollywood. Embora sintético (71 minutos), utiliza bem imagens de arquivo e músicas, às vezes interpretadas pelo próprio diretor. Ary foi, ao lado de Carmen Miranda, um dos grandes difusores da cultura brasileira nos Estados Unidos. Quando perguntado por que não ficou lá, respondia: Porque lá não tinha o Flamengo.
Programação Online
O festival ocorre de 18 de junho a 1 de julho, com exibições nas plataformas Itaú Cultural Play, Sesc em Casa e SP Cine Play.



